terça-feira, 29 de novembro de 2022

Pracinhas do SARSA

 Funcionários do Laboratório Laboratórios Silva Araújo-Roussel (Sarsa) do Rio de Janeiro que serviram a Força Expedicionária Brasileira. 

HOMENAGEM DE SARSA AOS
SARSANOS MOBILIZADOS
Número bem expressivo  de funcionários dos
Laboratórios Silva Araujo Roussel S. A. Foram mobilizados, sendo que alguns tomaram
parte na luta, nos campos da Itália .
Pagou, assim a Familia SARSA seu tributo
ao esfôrço pela vitória das democracias; e
consignando nestas colunas os nomes e as fotografias dos seus bravos expedicionários.
SARSA — presta-lhes sinceras homenagems com 
respeito, admiração e reconhecimento de seus
colegas Sarsanos de todo o Brasil.
1 — Arnaldo P. dos Santos.
2— Claudio Madeida de Melo.
3 — Dirceu de Lima  Souza.
4 — Felisberto Silva.
5 — Gilberto Cordeiro Braga.
6 — Dr.Italo Carneiro Ardersm.
7 — Jofre Alves de Lima.
8 — Moacir Lisboa Calheiros.
9 — Octavio Francisco Corrêa.
10 — Paulo José da Silva.
11 — Padro Melo dos Santos.
12 — Reginaldo Ferreira.
Fonte: Jornal Gazeta da Farmacia, nº 159, de Julho de !945, pag 5.

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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Adesivo antigo da FEB - Salvador

Antigo e raro adesivo da Associação Nacional de Veteranos da FEB, seção Salvador.Contendo varios dados como, campanha da FEB, divisões inimigas, vitorias, divisões e distintivos da FEB. (acervo O Resgate FEB)


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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Propaganda de guerra alemã para os aliados na Segunda Guerra Mundial.

A propaganda é uma forma de comunicação que visa influenciar a atitude de uma comunidade para alguma causa ou posição, apresentando apenas um lado de um argumento. Propaganda é normalmente repetida e dispersos sobre uma grande variedade de meios, a fim de criar o resultado escolhido nas atitudes do público.A propaganda tinham a função de persuadir a sociedade acerca da guerra. Por exemplo com frases como "Este é o inimigo" referindo-se a Adolf Hitler. Está briga ideológica entre os aliados x eixo vai durar até 1945.
Outro meio extensivamente utilizado pela propaganda alemã durante a guerra foi o lançamento e distribuição de folhetos, contendo textos que exploravam ou estimulavam a rendição sob ameaças ou denegrindo a imagem dos líderes ou sistemas de governo utilizados pelo inimigo. Estas campanhas foram especialmente extensivas nos fronts russo e francês.
Copias dos originais com as mesmas dimensões do original, vinda dos EUA sobre a propaganda alemã para os soldados aliados desertarem apelando para o sentimentalismo.
(acervo o Resgate FEB)

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Desfile de 7 de setembro de 1976 Senta a Pua

Eu em particular adoro as flamulas e chaveiros, eles nos contam muitas coisas, os momentos do passado, muitas vezes esquecidas pelo tempo, um verdadeiro guardião da história.
Dois antigos chaveiros em homenagem a Senta a Pua, lembrando do desfile de 7 de setembro de 1976 com a participação dos veteranos do Primeiro Grupo de Aviação de Caça (Senta a Pua) em Brasilia.
Quem sabe para a maioria não sabiam ou desconheciam do desfile a 44 anos atrás.
(acervo o Resgate FEB)
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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

MAJ IVALDO RIBEIRO DANTAS - F.E.B - CITAÇÃO PARA A ESTRELA DE BRONZE



CITAÇÃO PARA A ESTRELA DE BRONZE
QUARTEL GENERAL DO 5° EXERCITO


Itália, 4 – Agosto – 1945
Ivaldo Ribeiro Dantas, (4G-22785), Primeiro-Sargento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira. Por procedimento heroico em ação no dia 14 de Abril de 1945, nas vizinhanças de Serreto, Itália. Durante o avanço contra o inimigo, o Primeiro-Sargento Dantas, de baixo de densa barragem de artilharia, morteiros e metralhadoras inimigas, conduziu seus homens ao assalto a três casamatas alemãs matando e aprisionando muitos inimigos. No dia seguinte, ele, só, avançou sobre um ninho de metralhadoras inimigas, capturando a posição e fazendo muitos prisioneiros. Sua coragem e espírito combativo refletem um grande credito a ele e o mantêm ao nível das mais finas tradições militares. Iniciou sua carreira em São João Del Rey, Minas Gerais, Brasil.


POR ORDEM DO TENENTE GENERAL TRUSCOTT:
(a) DON A. CARLETON
Gen. De Brigada
Chefe do Estado Maior




Matéria :

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Pin Senta a Púa!

Antigo pin do “Senta a Púa!” do 1º Grupo de Aviação de Caça.O símbolo foi criado pelo Capitão Aviador Fortunato Câmara de Oliveira durante a II Guerra Mundial. Em metal esmaltado. 

(acervo O Resgate FEB)

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quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Expedicionário Ângelo Zardini


 Ângelo Zardini a direita

Nascido a 5 de dezembro de 1917 na Fazenda Uriage, na cidade de Colina, era filho de Artur Zardini e pai de Vera Lúcia, Carmem Lúcia e Rosângela.
Foi convocado para a Segunda Grande Guerra em 02 de junho de 1942, desembarcando em Nápolis, Itália, em 06 de junho de 1944. Participou das batalhas de: Soprasasso, Fornace, Montese e Monte Castelo. Em uma ocasião foi obrigado a permanecer 96 horas sem dormir, pois, teve a missão de escoltar os prisioneiros.
Devido aos atos de bravura praticados durante o combate, foi promovido a Cabo e a Terceiro Sargento. Teve como comandantes o Primeiro Tenente Ari Migueis e o Primeiro Tenente Wilson Almeida Fontes.
Âgelo Zardini permaneceu na Itália pelo período de 1 ano e 16 dias , retornando ao Brasil, chegou no Rio de Janeiro em 18 de Julho de 1945, chegando em Colina no dia 22 de Agosto de 1945, onde foi recebido calorosamente pela população.
Com a patente de Segundo Sargento aposentou-se e passou a residir em Barretos.
Fonte.
Elisete Greve Tedesco.
Força  Expedicionária Brasileira. 
(Edson Day)




terça-feira, 4 de outubro de 2022

UM BRAVO NA ARTILHARIA DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

Capitão Padron
Em 26 de abril de 1945, na localidade de Bibiano, o capitão de artilharia Fernando Pedra Padron tira a foto ao lado em um estúdio fotográfico. Nela é possível distinguir o símbolo da 1º Divisão de Infantaria Expedicionária costurado no uniforme do capitão. É possível também ver o seu tímido sorriso que, certamente, escondia uma alegria muito maior: o 3º Grupo de Obuses da Força Expedicionária Brasileira passava por aquela localidade em rápido deslocamento em direção as tropas alemãs que batiam em retirada pela Itália, após a ofensiva de primavera, iniciada pelos aliados em 14 de abril de 1945. Porém, apenas há alguns meses atrás, Padron estava no Brasil aguardando o dia em que seria enviado para a Itália.
As 8hrs da manhã do dia 23 de novembro de 1944, parte do Rio de Janeiro o transporte de tropas General Meighs levando consigo parte do depósito de pessoal da Força Expedicionária Brasileira. Este mesmo transporte já havia anteriormente servido ao Brasil: levou o 2º escalão da Força Expedicionária Brasileira, composto pelo 11º Regimento de Infantaria e que, a esta altura, realizava suas primeiras manobras em combate em solo italiano. Naquela ensolarada manhã despedia-se da terra natal o capitão de artilharia Fernando Pedra Padron, que juntamente com outros milhares de homens, havia embarcado no navio transporte no dia anterior.
A viagem transcorreu de forma tranqüila e o capitão ficou responsável pelo entretenimento aos soldados dentro do navio. Era sua missão organizar festas e shows para manter os soldados entretidos e diminuir os confrontos pessoais que poderia haver em espaços limitados com enorme concentração de homens. Para o capitão a atividade foi cumprida com louvor durante toda a viagem, diminuindo drasticamente o trabalho dos soldados responsáveis pela segurança do navio. De fato, em seus anos como militar Fernando Pedra Padron havia aprendido uma regra muito simples: “ordem dada é ordem cumprida”.
Padron inicia seus estudos na Escola Militar do Realengo em 1932. Desde os tempos do Colégio Militar já nutria amor pela arma de artilharia. Seu pai, também militar, servia nesta arma e Padron nunca teve dúvidas em qual segmento das armas deveria servir. Ele estava convicto: se não pudesse seguir a carreira de artilheiro, pediria o desligamento da escola militar e se tornaria um civil. Abençoado foi pelo seu estudo e em 29/12 de 1934 foi declarado Aspirante a Oficial. A imagem ao lado é de Padron na época em que cursava a escola do Realengo. No inicio de janeiro de 1935 Padron é deslocado para o 5º Grupo de Artilharia de Dorso em Curitiba onde serviria a partir de então. A partir daí, Padron seguiria por várias cidades do Brasil e em outubro de 1942 foi promovido a capitão. A esta altura o capitão havia se casado e tinha dois filhos.
Em julho de 1943 Padron é matriculado na Escola de Artilharia de Costa na Fortaleza de São João, Rio de Janeiro. È lá que em outubro de 1943 ele toma conhecimento que foi designado ao Grupo Escola de Artilharia onde sua função seria motorizar o grupo que havia sido designado como parte da Força Expedicionária Brasileira. Neste período, o Exército está passando por grandes transformações graças ao anuncio de que o Brasil enviaria uma força expedicionária à guerra. Por sermos aliados dos americanos, deveríamos equiparar o nosso exército ao deles. Isto significava receber novas armas, instruir todo o pessoal dentro dos novos parâmetros táticos e organizacionais, além de abandonar uma característica do nosso exército: na década de 1940 a maior parte da artilharia brasileira era hipomóvel, isto é, os canhões eram tracionados por cavalos. A missão de Padron era exatamente esta: transformar uma unidade hipomóvel em motomecanizada em pouquíssimo tempo. Era necessário formar motoristas e mecânicos.
Em maio de 1944 Padron é transferido para o Depósito de Pessoal (DP) da FEB, em Pindamonhangaba onde também fica como oficial responsável pelo transporte. Sua missão é transformar 100 soldados 11º Regimento de cavalaria, que haviam sido transferidos para o DP (Depósito de Pessoal) em motoristas. E foi assim que, alguns meses depois, Padron recebeu a noticia de que seria embarcado para a Itália com o DP.
Na Itália, todo o contingente do DP foi estacionado em Stafolli, campo situado a 90km de Livorno. Lá Padron continuou como Oficial de Transportes e tinha ao seu comando os 100 motoristas treinados no Brasil e viaturas de diversos tipos a disposição. A cada dois dias Padron era enviado a Livorno para cuidar de suprimentos, munição, roupas e peças sobressalentes para reparar as viaturas que estavam à cargo do DP. Também era responsável pela agenda de transportes de oficiais e soldados as Escolas de Aperfeiçoamento instaladas na Itália e pelo transporte de soldados enfermos ao hospital de Livorno, já que a ambulância responsável por este transporte estava sempre em reparos.
Em março de 1945 o General Cordeiro de Farias, comandante da Artilharia divisionária, teve noticia de que havia aproximadamente 38 oficiais artilheiros no Depósito de Pessoal que estavam encarregados com outras funções que não a artilharia. O General dirigiu-se até Stafolli para levar estes oficiais até o front e distribuí-los entre os 4 grupos de artilharia da FEB. Ao saber da visita do general, Padron imediatamente o procura para uma conversa, pois não havia sido selecionado entre estes oficiais. Após a recusa do general disse o capitão: “meu General, por favor, me leve para a linha de frente pois eu vim para a Itália lutar e não para ficar depositado.”[1] Alguns segundos depois Cordeiro de Farias respondeu afirmativamente a Padron, ordenando que ele se preparasse para partir no dia seguinte.
Padron foi designado ao 3º Grupo de Artilharia da FEB, comandado pelo tenente coronel José de Souza Carvalho. A artilharia brasileira era composta de quatro grupos de obuses e armada principalmente com peças de 105mm. A exceção era o 4ª Grupo de Obuses (GO) composto por peças de 155mm. Cada grupo possuía 12 peças, dividido em 3 baterias de quatro canhões cada.[2] Cada Grupo, comandado por um tenente coronel possuía o seu Estado-Maior e oficiais que serviam junto aos batalhões da infantaria, chamados oficiais de ligação. A artilharia brasileira era formada por grupos recém criados tanto no estado do Rio de Janeiro quanto em São Paulo durante o ano de 1943. A exceção era o grupo proveniente do Grupo Escola, com base no Rio de Janeiro, já existente.[3]
A partir de então o capitão Padron viu a guerra de perto: neste período, após o termino do inverno, os aliados se preparavam para a ofensiva da primavera cujo objetivo era dar um golpe final nas forças inimigas em toda a Itália. A ofensiva da primavera seria feita por todas as tropas aliadas na Itália. Após o rompimento da Linha Gótica, sobretudo no vale do Reno, os alemães tinham instalado outra linha defensiva nas montanhas do vale do Pó. A ofensiva deveria levar os aliados para local mais próximo das fronteiras com a França, Suíça, Áustria e Iugoslávia para bloquear a passagem das tropas alemãs que poderiam chegar à Alemanha. A situação era desfavorável aos aliados, pois os alemães possuíam 28 divisões e uma brigada, enquanto os aliados 20 divisões e 10 brigadas diluídas entre o V e o VIII grupo de Exército[4]. Os aliados tinham a certeza de que a ofensiva da primavera seria marcada por aguerridos combates, pois se os alemães perdessem suas posições, estaria aberto o caminho para a aniquilação do exército nazista em solo italiano.
O movimento foi dividido da seguinte forma, em três fases: capturar e consolidar Bolonha, consolidar as posições no Vale do Pó e atravessar o rio do Pó, que seria a principal rota de retirada do inimigo. Em reunião no dia 8 de abril, ficou esclarecido que a 1º DIE estaria responsável pela captura de Montese, Cota 888 e Montello dentro da Operação Artífice, codinome dado aos aliados a ofensiva da primavera. A data da ofensiva brasileira ficou marcada para 14 de abril, o chamado ‘Dia D’ na Itália.
A esta altura Padron já servia como Oficial de Operações S/3 no Estado Maior do 3º Grupo de Artilharia. O grupo estava, naqueles dias ensolarados de abril, responsável pela preparação aos ataques que seriam iniciados com a ofensiva da primavera. Tiros de inquietação e localização e posterior destruição de pontos estratégicos inimigos também estavam na ordem do dia, assim como apoio a patrulhas que fizessem contato com o inimigo e precisassem de apoio da artilharia. Em 13/04 o grupo inicia o ataque de todos os objetivos previstos para a Artilharia.
As 8h30min do dia 14 de abril levantam vôo, de todos os aeroportos militares da Itália, grupos de caça e bombardeio. Também a artilharia aliada começou um bombardeio de saturação em todas as linhas de frente adversária. Neste momento inicia o avanço das tropas de infantaria, por terra, em busca de seus objetivos. A 10º divisão americana de montanha partia para a batalha, enquanto a 1º e 2º companhia do IX Batalhão de Engenharia da FEB fazia a limpeza de minas na área de Montese. O combate da FEB começou efetivamente às 13h30min com intenso bombardeio e apoio de blindados americanos. Por volta das 15h elementos do 11º RI chegavam a periferia de Montese, abrindo espaço para que soldados brasileiros adentrassem na localidade inimiga. O Tenete Iporã Nunes de Oliveira ganhou a Silver Star, condecoração americana, pelo seu admirável desempenho e destemor ao entrar em Montese[5]. A noite se aproximava e a infantaria brasileira enfrentava um dos piores contra-ataques alemães, com fogo de morteiros, granadas e artilharia. Apesar do esforço do Batalhão de Engenharia, muitas vidas foram ceifadas com as minas ao longo da jornada do dia 14. A euforia da conquista de Montese se apoderava de todos os oficiais brasileiros, mas parte da missão ainda estava incompleta: a capitulação de cota 88 e Montello.
Neste dia, Padron torna-se oficial de ligação da artilharia do II Batalhão do 6º RI junto ao Major Henrique Cordeiro Oeste. Os dois oficiais se deram muito bem, graças a corgem de Padron e o espírito destemido deste major. Padron solicitava pelo rádio junto ao 3º GO os tiros ordenados pelo Major Oeste enquanto a batalha seguia aguerrida.
Na manhã do dia 15 a tropa brasileira faz nova arremetida contra o complexo de Montese, com o objetivo de conquistar cota 88 e Montello que ofereciam forte resistência alemã. De fato, aguerrida foi a batalha contra os germânicos, pois a perda destes importantes locais significava o fim da guerra para o exercito alemão na Itália. Durante todo o dia 15 calculou-se a queda de mais de três mil e duzentos projeteis de artilharia alemã no setor da 1º DIE[6]. Graças a esta resistência, as baixas ao longo do dia foram de 129 brasileiros. A luta por Montello prossegue durante o dia 16 e o pior inimigo das tropas brasileiras se chamava Schuhmine: a temida mina alemã feita de madeira, que não podia ser detectada pelos detectores de metais e que costumava arrancar o pé de um homem e que estava espalhada por toda a área de Montese – Montello[7]. O general Mascarenhas decidiu suspender o ataque, transferindo-o para a manhã do dia 17, enquanto a 10º divisão de montanha americana começava a romper a linha alemã com a conquista de Tole. Neste dia Padron retorna a sua função junto ao 3º GO e acompanha os diversos deslocamentos do grupo pela região do Vale do rio Panaro, acompanhando a retirada das tropas alemãs que seguia com grande rapidez.
Pela manhã do dia 17 o Gen. Crittenberger visita o Gen Mascarenhas e pede que a ofensiva seja interrompida, devido ao avanço da 10º divisão e o rompimento da resistência alemã. A atividade brasileira passou a realização de patrulhas. Padron havia se deslocado junto com o 3º GO para a localidade de Bibiano, onde tira a foto que abre este artigo, em 26 de abril de 1945. A partir desta cidade, a artilharia intensificou seu trabalho na região em que estava espalhada a 148º Divisão de Infantaria alemã. No dia 28/04 o Coronel Nelson de Mello, comandante do 6º RI, lança o ultimato ao comandante das forças alemãs, General Otto Freter Pico e que dizia o seguinte:
Ao comando da tropa situada na região de Fornovo – Respício.Para poupar sacrifícios inúteis de vidas, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao comando das tropas regulares do Exército Brasileiro, que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercado e impossibilitado de qualquer retirada. Quem vos intima é o comando da vanguarda da Divisão Brasileira, que vos cerca. Aguardo dentro do prazo de duas horas a resposta do presente ”ultimato”.
Entrando em acordo as duas partes, ficou acordado que a artilharia brasileira cessaria sua atividade em 29/04. De fato, na madrugada deste dia, o 3º GO deu a ultima salva de artilharia da FEB. A guerra já estava em seu final e a cada dia novas situações deixavam claro que a paz chegaria aos campos de batalha da Europa mais uma vez. Na tarde de 27 de abril Benito Mussolini foi preso enquanto fugia, disfarçado com um capote alemão. Outras divisões alemãs e italianas também se rendiam aos aliados pela Itália do norte. No dia 30 de abril o Gen. Crittenberger entra em Milão, festejando a libertação da cidade desde a prisão de Mussolini. Nova ordem é expedida pelo IV Corpo ao 1º DIE: continuar o avanço detendo possíveis focos de resistência inimiga em direção a Alexandria. Por volta das 22h do dia 30 de abril as forças brasileiras fazem contato com a 92º divisão americana em Alexandria. Eis que no mesmo dia, 30 de abril, Hitler suicidava-se em seu Bunker na Wilhelmstrasse e o final da guerra se avizinhava. Na manhã do dia 2 de maio o Gen. Crittenberger ordena a rendição incondicional de todos os elementos inimigos em solo italiano. Por volta das 22h a ordem é cumprida. A ação culmina na Europa com a assinatura de rendição incondicional do III Reich pelo Gen Jodl em 7 de maio.
Ao término do Conflito, Padron, assim como o restante da FEB, aguarda o deslocamento de volta ao Brasil. Este se dará em agosto de 1945, quando ele retorna com parte da Força Expedicionária Brasileira ao Rio de Janeiro. Padron permanece na ativa do Exército Brasileiro aonde chega ao posto de General de Brigada em 1966.


"A foto ilustrativas deste artigo fazem parte de minha coleção particular e são originais. O acervo de Fernando Padron está espalhado entre vários colecionadores que se dignificaram a guardar a memória deste e de tantos outros combatentes e que, muitas vezes, são jogados no lixo. As ações descritas neste artigo fazem parte dos dois volumes escritos pelo próprio Padron e publicados entre 1997 e 1998 por iniciativa própria. Estes dois volumes são bastante raros e eu só os consegui através do contato com outros entusiastas da história da Força Expedicionária Brasileira, aos quais agradeço de coração. Também agradeço a Julio Z. que me doou duas imagens de Padron que estavam em seu poder."

Matéria :Blog do Licio Maciel

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Chaveiro antigo FEB

 Antigo chaveiro da Associação Nacional dos Veteranos da FEB em bronze e esmaltado. 

( acervo O Resgate FEB)


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terça-feira, 13 de setembro de 2022

Uma História da F.E.B – Conto (Gustavo Araujo)


Collecchio, Itália, 2 de junho de 1945.

Prezada Senhora,

Peço-lhe desculpas, primeiramente, por atravessar-me deste modo, uma vez que não nos conhecemos.
Com o devido respeito, permita-me apresentar: sou o capitão Evaristo José Pereira. Durante os primeiros meses da guerra, seu noivo, o tenente Leonardo Campanaro foi meu comandado.
Esta breve missiva tem por objetivo esclarecer os fatos do lamentável falecimento de Leonardo, indo além da comunicação padronizada que o Ministério da Guerra deve ter lhe apresentado. Tenho certeza de que ele aprovaria minha atitude, eis que os fatos por ele protagonizados não devem ser ignorados. Impõe-se que a história seja contada nos pequenos detalhes, de modo a preservar a memória do homem extraordinário que foi Leonardo. Por isso mesmo, peço-lhe perdão pelos eventuais excessos nas descrições que se seguem. Penso que a senhora tem o direito de saber o que realmente aconteceu.
A primeira vez que vi Leonardo foi durante o deslocamento do primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira, a FEB. A bordo do navio de transporte General Mann, aquele distinto oficial chamou-me a atenção por dois motivos. Primeiro, suas proeminentes orelhas de abano, que lhe conferiam um ar juvenil; segundo, o nome que ostentava no uniforme, denunciando sua origem italiana. Perguntei-lhe por que não optara por usar seu primeiro nome, só para evitar confusões, já que a Itália tinha se alinhado à Alemanha, sendo, portanto, inimiga. Ele, com toda a educação, corrigiu-me, afirmando que seu primeiro nome também tinha origem italiana e que, mais importante, nossos inimigos eram os fascistas e os nazistas e não o povo italiano ou o alemão. Ele estava certo. Era mais do que apropriado que usasse seu nome de família.
O navio estava apinhado e todos tinham muito medo dos submarinos alemães. Havia no total cerca de cinco mil homens e para a nossa própria segurança, desconhecíamos nosso destino. Leonardo conhecia jogos de cartas e isso ajudava a aliviar um pouco os nossos temores. No entanto, foi só quando chegamos ao ponto final, em Nápoles, no dia 16 de julho, que aquele peso, o medo de morrer sem ao menos chegar no teatro de operações, deixou os nossos ombros.
Acampamos em Bagnoli e passamos algumas semanas em treinamento, recebendo armamento, munição e equipamentos dos americanos. Durante esse tempo Leonardo e eu nos tornamos próximos. Certa vez, depois de um exercício de ataque e infiltração, enquanto limpávamos o armamento, ele me contou que o avô havia lutado na guerra do Contestado. Achei aquilo extraordinário, porque o meu avô também tinha estado naquela guerra. Ele me disse que guardava a espada que tinha pertencido àquele homem e que, quando regressássemos, ele me mostraria a relíquia.
Leonardo contou-me também que antes de entrar para o Exército ajudava o pai em uma tinturaria. Que ambos tinham migrado para São Paulo, em busca de melhores oportunidades, logo depois que ele ficou órfão de mãe. Disse-me que trabalhar para o pai era algo próximo a um regime de galés, mas que havia um lado positivo. Segundo ele, o pai permitia que estudasse e, assim, ao tempo de prestar o serviço militar, Leonardo teve o êxito de ser matriculado no CPOR da capital paulista. Ao final de um ano, foi nomeado oficial temporário (R/2) de infantaria. Quando seu tempo no Exército terminou, disse-me, voltou a trabalhar com o pai. Prosseguindo nos estudos, entrou na faculdade de direito. Nesse ínterim, segundo me contou, conheceu uma garota chamada Roberta, por quem se apaixonou. Dizia ser a mulher mais bela entre Manaus e Porto Alegre.
Certa vez, Leonardo mostrou-me uma foto em que ele e a senhora apareciam juntos. Era um retrato desses tirado em frente a uma parede pintada, um cenário imitando um rio ladeado por pinheiros. Tanto a senhora como ele trajavam roupas de domingo, inclusive chapéu, e sorriam largamente. Uma imagem que, se me permite dizer, evidenciava o quão felizes deviam estar.
Ao mostrar-me esse instantâneo, meu amigo confidenciou-me que ele e a senhora eram obrigados a se encontrar às escondidas.
Aliás, perdoe-me por conhecer alguns de seus segredos. A guerra acaba unindo os homens, fortalecendo laços de amizade. Não são poucas as vezes em que desabafamos nossos problemas uns aos outros, contando fatos que normalmente manteríamos em nosso íntimo.
De todo modo, segundo Leonardo, os pais da senhora não aprovavam o relacionamento entre vocês. Algo que tinha a ver com as convicções políticas deles, embora isso nunca tenha ficado claro para mim. Mas, de qualquer forma, de acordo com as palavras de meu amigo, ‘o amor prevaleceu’ e vocês continuaram a se ver em segredo.
Quando a guerra estourou e o Brasil decidiu enviar um contingente à Itália, Leonardo, assim como outros oficiais da reserva, foi convocado para integrar a I Divisão de Infantaria Expedicionária, como membro efetivo do 6º Regimento de Infantaria. Patriota exemplar que era, aceitou a incumbência, especialmente porque sentia um forte apego às suas origens. ‘Era meu destino’, costumava afirmar.
Disse-me, porém, que nas semanas que antecederam o embarque, dois fatos o deixaram abalado. O primeiro foi o falecimento do pai, a quem muito estimava. Esse triste acontecimento, contudo, foi compensado com a notícia de que a senhora estaria esperando um filho. Devo dizer-lhe que Leonardo falou-me diversas vezes sobre a expectativa de ser pai e nessas horas, acredite-me, seus olhos brilhavam e ele se emocionava muito. Contou-me que desejava se casar com a senhora, mesmo sem a aprovação de seus pais, assim que regressasse da Itália.
Naturalmente, contei a Leonardo um pouco da minha história também. Disse-lhe que tinha feito a Escola Preparatória de Porto Alegre e que depois fui para a Escola Militar do Realengo, de onde saí oficial de infantaria. Do Rio de Janeiro segui para Caçapava, em São Paulo, onde passei a servir no 6º RI. Assim como Leonardo, também deixei uma garota à minha espera.
Todos nós que estávamos na Itália sabíamos que era questão de tempo até entrarmos em combate. Por isso vivíamos sob uma tremenda tensão. Logo marchamos para Tarquínia, ao norte, e nos incorporamos ao V Exército Americano. A frente de batalha se localizava próxima ao rio Arno, nas imediações de Pisa, onde os alemães ofereciam uma enorme resistência. Em 16 de setembro, nosso regimento teve seu batismo de fogo. Marchamos em direção a Massarosa, Bozzano e Chiesa. Estávamos nos aproximando da famosa Linha Gótica alemã, a mais fabulosa linha de defesa jamais estabelecida na Europa, um orgulho da propaganda nazista, que se estendia por 250 quilômetros, do Mar Tirreno ao Adriático. Nosso objetivo era, em suma, era rompê-la. Ao contrário das expectativas pessimistas, os primeiros combates ofereceram pouca resistência. Em Camaiore, por exemplo, os alemães simplesmente debandaram com a nossa chegada.
Porém, a partir daí, os embates foram se tornando mais renhidos. Com crescentes baixas tomamos Monte Prano, Borgo e Fornoli. Pude ver que Leonardo era um bom líder. Seus homens confiavam muito nele. Tomava sempre a iniciativa, sem afastar-se da estratégia definida pelo comando. Tinha muita bravura, vou lhe dizer. Era talvez um dos homens mais corajosos que já conheci. Certa vez, eu o vi avançar em meio a uma tempestade de artilharia para resgatar um soldado ferido que pertencia a outro pelotão. Era o tipo da coisa que todos éramos ensinados a fazer, mas que pouco cumpriam. Avançar em meio à artilharia pesada beira o suicídio, mas ele não teve medo e trouxe aquele garoto de volta à segurança. Eu testemunhei esse fato com meus próprios olhos e realmente fiquei impressionado.
Infelizmente, outros brasileiros não tiveram a sorte de ter alguém como Leonardo por perto. Ao chegarmos ao Vale do Serchio havíamos perdido muitos soldados. Nas imediações de Gallicano, nossa companhia foi incumbida de tomar uma fábrica de munições. Eram os primeiros dias de outubro. A reação tedesca veio pesada e com uma intensidade que não havíamos experimentado até aquele momento. Já no início eu podia adivinhar que perderia muitos homens naquele dia. Honestamente falando, senti que teria sorte se eu mesmo escapasse com vida. Senti medo de morrer. Vi alguns homens ao meu lado serem varridos da existência. Uma cena terrível. Jovens desesperando-se ao ver que não escapariam do abraço da morte, percebendo que os anos que teriam pela frente, ao lado de uma esposa, de filhos e de amigos jamais existiriam. Foi muito triste.
Devido à intensidade dos fogos, tivemos que solicitar reforço, pois aquele era um ponto estratégico muito importante. Tínhamos que conquistá-lo. Outra companhia juntou-se a nós e depois de três horas, enfim, os alemães se retiraram. Ao reunir meus homens, ao final daquela jornada, percebi que meus temores estavam certos. As baixas eram pesadas. Um preço talvez alto demais. Porém, o que me deixou mais aflito, embora eu não pudesse expressar, não na frente de todos, foi que o tenente Leonardo não se juntou a nós. Estava desaparecido. Alguns o tinham visto em meio aos fogos, mas ninguém sabia de seu paradeiro. As horas se arrastaram sem qualquer notícia de meu amigo. Foi o dia mais longo da minha vida. Eu estava prestes a mandar que se realizasse o inventário de seus pertences quando o vi caminhando em meio à neblina do fim de tarde, vindo em direção ao posto de comando. Parecia uma assombração, completamente sujo, com o uniforme acabado. Tinha algumas escoriações, manchas de sangue e de pólvora, mas estava bem. Senti um alívio tremendo ao vê-lo inteiro. Contou-me ele que tinha ficado preso em alguns escombros e que perdera a maior parte do enfrentamento. Estava envergonhado, dizia, pois não pôde ajudar ninguém. Teve que permanecer quieto até que tudo estivesse acabado para aí sim livrar-se em segurança da parede que tinha caído sobre ele. Suas explicações soavam um pouco desconexas, mas eu estava feliz por vê-lo diante de mim. ‘Não foi dessa vez’, disse-me.
As batalhas prosseguiram e, apesar das baixas, o moral da tropa era elevado. Porém, ao final de quarenta e cinco dias de combate, nosso regimento estava esgotado. Como se soubesse disso, uma tropa alemã articulou-se para lançar nos atacar. Nessa ocasião, estávamos estacionados num pequeno povoado à margem do Serchio. Durante a madrugada os tedescos chegaram. Não era uma companhia regular, da Wermacht, mas da SS, um grupamento de elite. Era dia 31 de outubro de 1944. Jamais esquecerei essa data.
Os alemães nos atacaram como fanáticos e conseguiram cercar nosso posto de comando, que havia sido montado numa velha casa colada às posições mais avançadas. Nossas ordens eram defender o local até a última bala, para permitir que o pessoal da retaguarda fugisse. Queira desculpar-me a expressão, senhora, mas foi a visão do inferno. Por horas ficamos aprisionados naquele local resistindo à invasão como podíamos. Quando começou a amanhecer, recebi a informação de que a tropa estava em segurança e que só restávamos nós dentro da casa, em torno de vinte pessoas. Tínhamos que escapar pelos fundos. Enquanto os oficiais, uns cinco ao todo, escoravam as portas, os demais se dirigiram para a parte os fundos, na esperança de fugir por um buraco. Porém, alguns alemães conseguiram entrar pelo telhado e logo chegariam até nós. Restavam apenas quatro brasileiros agora confinados ao segundo andar. Não tínhamos a menor ideia se o pessoal que fugira pelos fundos tinha conseguido chegar às nossas linhas. Não tivemos tempo para nos preocuparmos com isso. Os passos apressados dos invasores, cuspidos pelo vento, chegaram até nós. Lembro-me de ter visto Leonardo e mais dois tenentes gritarem para mim: ‘capitão, pela janela’. Saltamos todos. Quando chegamos ao chão saímos rapidamente em direção às nossas linhas, que tinham se reagrupado à retaguarda e agora podiam nos dar cobertura até que chegássemos a eles. Corri o mais rápido que podia, ignorando o cruzar das balas ao meu redor. Consegui chegar a um local de vegetação densa e ali, escondido no local a meio caminho da tropa alemã e dos brasileiros, virei para observar se alguém me perseguia.
Podia ver a casa e muitos alemães se posicionando para atirar contra nossos homens, que agora se encontravam abrigados pela floresta. Pareciam não ter notado a nossa fuga. Vi que próximo à casa um homem rastejava lentamente, o rosto colado ao chão, enquanto o mundo explodia em tons rubros sobre sua cabeça. Quando ele ergueu a cabeça reconheci-o. Era Leonardo. Tinha a expressão determinada, de quem sabe o que é preciso fazer. Mesmo de longe, eu podia dizer que ele não estava ferido, ainda que alguma coisa, um tornozelo torcido talvez, o impedisse de correr. Com o fogo cruzado sobre si, Leonardo avançava lentamente. Vinha na minha direção. Até hoje me pergunto se ele me viu ou se apenas se dirigia para aquele local por coincidência.
A progressão era lenta e contrastava com a intensidade do combate. No instante em que pensei em ajudá-lo, um soldado alemão percebeu o que acontecia. Sem que ninguém pudesse fazer nada, ele ergueu sua luger, fez a pontaria e disparou. Para a sorte de Leonardo, o tiro passou longe. Impaciente e visivelmente contrariado, o mesmo soldado sacou sua metralhadora e deu uma rajada. Dessa vez não deu para Leonardo. Do local onde eu estava, assisti àquela cena, impotente. Vi que os disparos atingiram a perna direita de meu amigo. O olhar de Leonardo estancou e todos os seus músculos se contraíram. É uma imagem que vou guardar comigo por toda a vida, senhora. O olhar da morte.
Do nosso lado alguém disparou contra o soldado alemão, que caiu inerte. Nesse instante, eu corri até Leonardo, ignorando todos os meus instintos. Não queria acreditar que era tarde demais. Passei um de seus braços sobre meu ombro e puxei-o para um local abrigado. Ninguém pareceu nos seguir. Recostei meu amigo em uma árvore. Ele ainda estava vivo. Apliquei-lhe um torniquete e fiz com que ele se deitasse. Seu olhar começava a ficar turvo, mas eu pude, ou eu quis, acreditar que ele me entendia. ‘Vou buscar ajuda’, disse eu. ‘Você não vai morrer’. Eu tentava me convencer daquilo também. A troca de tiros continuava, mas consegui me esgueirar pela floresta e atingir o local onde nossos homens haviam se reunido. Tentei retornar com um grupo de padioleiros e um enfermeiro ao local onde havia deixado meu amigo, mas a troca de tiros nos deteve por todo o dia. Assim como nós, também os alemães conseguiram reforços.
Somente à noite conseguimos debelar o ataque deles. Desapareceram na escuridão, do mesmo modo como haviam chegado. Organizei uma pequena equipe de resgate para buscar Leonardo. Tinha esperanças de encontrá-lo vivo. A escuridão, contudo, além da chuva, tornou nosso intento impraticável. Poucas vezes vi uma noite tão miserável e escura. Eu não podia mais dizer se o caminho era este ou aquele. Fui me desesperando por causa do atraso, sabendo que cada minuto que demorássemos podia ser fatal ao meu amigo. Não desisti. Precisava encontrá-lo, nem que fosse apenas para ter certeza de que tinha morrido. Os homens que me acompanhavam foram admiráveis. Estavam arriscando suas vidas por alguém que mal conheciam.
Jamais conseguimos. Nos dias seguintes um novo posicionamento da tropa alemã tornou impossível chegarmos ao local onde Leonardo jazia, agora morto provavelmente. O nosso regimento se deslocaria também e, com a chegada do inverno, eu não teria outra chance de resgatar meu amigo. Imaginei como teriam sido seus últimos momentos. Torcia para que ele tivesse simplesmente adormecido, que não tivesse sofrido demais.
A guerra ainda iria longe, alheia às tristezas. Como a senhora deve ter escutado, em Monte Castello a FEB passou por um grande teste. Depois, em Montese vivemos o combate mais sangrento de toda a campanha, onde sofremos mais de quatrocentas baixas em apenas três dias. Eu paguei minha cota nessa jornada, sofrendo um ferimento que iria me tirar da linha de frente.
Hoje admito que fiquei aliviado. Quer queira, quer não, era uma garantia de que eu iria sobreviver. Mas, naqueles dias eu não consegui lidar com isso. Sentia-me como um covarde por ter abandonado minha companhia, por ver homens que eu conhecia tomarem parte em investidas arriscadas. Depois de Montese nossa tropa partiu ao encalço dos alemães no vale do Pó, que batiam em retirada, estraçalhados por tantos anos de guerra.
O disparo de que fui vítima acabaria por me provocar uma lesão na bacia. No início, uma operação parecia ter bastado para solucionar o problema. Tanto é que não fui repatriado. Permaneci à retaguarda, com o pessoal que definia e planejava as operações. Assim que eu me recuperasse seria enviado de volta ao regimento.
Não houve tempo para tanto. A rendição alemã veio em 2 de maio de 1945, há apenas um mês, e as hostilidades cessaram. Houve muita festa e comemorações. Muitos esqueceram dos votos matrimoniais e se entregaram a prazeres redentores, devo lhe dizer. Outros começaram a beber sem limite para terminar. Os homens sentem-se vivos. Passaram por um teste de proporções terríveis e sobreviveram. Não se pode culpá-los por querer celebrar a vida.
Assim como tantos outros, eu também estou mudado, admito. Como muitos, tive a clara visão de como deve ser o inferno. Mas, o que mais me marcou em toda esta campanha foi a perda do Leonardo. Tão logo se calaram as baterias, eu solicitei autorização ao comando da FEB para deslocar-me com uma patrulha ao vale do Serchio. Dias depois me forneceram uma viatura e um grupamento de escolta. Regressamos até aquela fábrica de munições onde tínhamos sido emboscados. Quando chegamos, o dia estava claro, um céu azul como eu poucas vezes testemunhei. O lugar estava totalmente destruído, com pilhas de tijolos e marcas de tiros nos escombros que teimavam em permanecer em pé. O reboco soltava dos muros e a janela de onde havíamos saltado tinha desaparecido, juntamente com a parede da casa. O telhado era agora um monte de madeira podre e retorcida. Havia um odor fúnebre pairando em cada palmo. A vegetação tinha crescido, mas as marcas do combate ainda estavam nítidas. Era até estranho ver aquele cenário lúgubre envolto por uma brisa calma, onde se ouviam pássaros cantando ao longe.
Forçando a memória, tentei recordar os momentos daquela triste madrugada. Os tiros zunindo, os alemães gritando, o desespero de nossos homens em fuga. Podia ver-me saltando da janela e correndo para a vegetação que me abrigaria. De lá eu assistiria ao desespero de Leonardo, seus olhos cravados nos meus, tentando chegar à segurança.
Reconhecia os lugares agora. O exato ponto onde Leonardo fora alvejado estava a poucos metros de mim. Abaixei-me para ter uma noção precisa do que ele via naquele momento. Mais adiante, pude identificar o local em que eu me abriguei e para o qual, momentos mais tarde, levaria meu amigo em busca de proteção. Dava mais ou menos uns cinquenta metros. Levantei-me e caminhei de modo decidido até lá, passos apressados. Vasculhei a área e logo o descobri.
O corpo de Leonardo, ou o que restava dele, jazia intocado, próximo a um pinheiro, exatamente na posição em que eu o havia deixado seis meses antes. Olhei para sua perna direita e vi o torniquete. A decomposição já avançava sobre ele, mas eu pude reconhecer suas orelhas de abano. Examinei seu uniforme e recolhi seus pertences. O respeito pelos mortos não é exatamente uma prioridade na guerra e eu precisava evitar que a senhora não fosse privada dos objetos que o acompanharam até o último instante. Relógio, aliança de noivado e até uma correntinha com um crucifixo. Guardei tudo para depois entregar à senhora. Reparei que um dos braços de Leonardo estava cruzado sobre o peito, a mão escondida sob a jaqueta, como se ele, no momento derradeiro, tivesse buscado alguma coisa no bolso interno. Ali encontrei a foto que ele havia me mostrado no início da guerra, aquela em que ele e a senhora posavam de chapéus diante de um cenário bucólico. Havia também uma carta endereçada à senhora.
Preciso confessar-lhe que nesse momento eu me abaixei e chorei. Não pude evitar. As lágrimas foram mais fortes que qualquer vergonha que eu pudesse ter em escondê-las. Os soldados que me acompanhavam respeitaram a minha dor. Compreendiam perfeitamente a angústia da perda.
Eu sabia que durante a guerra muitos tinham perdido amigos e até parentes, mas aquilo tinha acontecido comigo. Não era uma história que me contaram. Eu vi, depois de seis meses e um longo inverno, o corpo de meu melhor amigo do exato modo como eu o havia deixado.
O que me consola é saber que fiz tudo para salvá-lo. Se não pude resgatá-lo com vida, ao menos voltei para salvar sua memória.
Tenho certeza de que ele faria o mesmo por mim.
Encerrando, esclareço à senhora que os objetos que Leonardo guardava consigo quando o encontrei, em especial a correspondência que lhe era destinada, juntamente com a foto que mencionei, seguem anexas a esta carta. Os demais pertences já seguiram pelo serviço competente do Ministério da Guerra, devendo ser lhe entregues oportunamente.
Como eu disse no início, escrevo esta carta para que a história não se esqueça de Leonardo, assim como de outros bravos soldados como ele. Sei que ainda estou contagiado pela notícia do fim da guerra, mas gostaria de pensar que os brasileiros podem se orgulhar muito de nós. Tenho plena convicção de que ajudamos o mundo a se firmar como um lugar bom.
Coloco-me à disposição da senhora para qualquer eventualidade, esperando ser de alguma utilidade se necessário. Tenha certeza de que somos irmãos na dor da perda.
Sinceramente,

Evaristo José Pereira.


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terça-feira, 6 de setembro de 2022

Manchetes do fimal da guerra .

Rarissimos jormais de 1945, completos de grandes matérias e pesquisas historicas do perido do final da guerra e as machetes dos principais jornais do Brasil. 

"A Noite", RJ, segunda feira do dia 30 de abril de1945,

anunciando o cessar fogo na Itália e o ataque as ultimas posições em Berlim.

"Diario da Noite", quinta feira do dia 10 de maio de 1945, com a manchete "Derrotados pela aviação" e os detalhes do "Regresso da FEB" pelo Ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra.

E rara publicação do Serviço Especial da FEB, "O Cruzeiro do Sul",Itália, quinta feira de 31de maio de 1945, numero especial com inumeras matérias como fim das hostilidades na Itália, a rendição da 148 Divisão Infantaria Alemã e varias matérias relacionadas a FEB.

(acervo O Resgate FEB)





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