quarta-feira, 12 de julho de 2017

Minha primeira noite de combate na FEB foi de pânico'


Fui aluno de Manoel Bandeira no Colégio Pedro 2.º, no Rio, de quem me fiz amigo. Resolvi fazer exame na Escola Militar para livrar minha mãe de problemas financeiros e era aluno quando houve a declaração de guerra. Tinha 22 anos. Saí aspirante e fui para Salvador, onde me designaram para o 11.º Regimento de Infantaria, uma unidade expedicionária. E assim fui parar na FEB.
Meu primeiro contato com a guerra foi no cais de Nápoles, terrivelmente bombardeada. Havia inúmeros navios afundados à vista. A gente via a situação lamentável dos italianos, ansiosos por algum tipo de ajuda, um aceno, uma caixa de alimentos, uma lata ou mesmo um cigarro.



Patrulha brasileira em Sevigone, entre Montese e Fanano, na Itália. Estas duas últimas cidades ainda estavam em poder dos alemães 
Entramos em linha nos últimos dias de novembro. É a estação das chuvas na Itália. Os caminhos e encostas ficam enlameados. É extremamente difícil andar nessas condições. Estávamos na frente do pequeno Rio Reno, na face oriental dos Apeninos. A região é dominada pela linha de cristas, de que é parte Monte Castelo. Geradores produziam fumaça o dia inteiro para que o adversário não visse onde se passava nesse vale.
O medo é uma realidade. Na área de Bombiana, havia posições difíceis guarnecidas pela tropa. Eu vi um oficial entrar em uma dessas posições e uma semana depois sair da posição inteiramente de cabelos brancos. Quando chegamos, o alemão percebeu e fez o óbvio: uma ação que desmoralizasse nossos homens. Enviou patrulhas para nossa frente, em Casa de Guanella, e desbaratou nossa tropa. O capitão perdeu o controle dos homens e eles entraram em pânico, arrastando uma das companhias à esquerda. Minha primeira noite de combate na Força Expedicionária Brasileira foi uma noite de pânico. Ninguém segura quem debanda. Você acolhe na retaguarda, o que foi feito. O comando da divisão reuniu o batalhão e decidiu que ele participaria da primeira ação ofensiva em Monte Castelo. Assim foi. E ele se saiu bem. Mas o capitão da tropa que debandou foi destituído do comando, submetido a Conselho de Guerra e condenado. Perdeu a carreira.
A FEB começa a guerra para mim com o episódio que narrei, a noite terrível do pânico, de 2 para 3 de dezembro de 1944. É inesquecível, pois é o dia do Colégio Pedro 2.º - comemorei o aniversário do Pedro 2.º no pânico. Essa divisão, que chega e combate sob o signo da heterogeneidade, inclusive entre os comandantes, no Estado-maior, com brigas internas, egos imensos se devorando uns aos outros, acaba a guerra no avanço avassalador para o noroeste, chega até a fronteira da França. Um lance de extrema felicidade e sorte. Fomos muito bem-sucedidos, em grande parte por muita fortuna. Fortuna, pois tudo indicava que não daria certo. / M. G. e E. F.\
O Estado de São Paulo

terça-feira, 27 de junho de 2017

Ex pracinhas comerciantes.

Muito interessante, lendo o boletim "O Febiano"de 1970, reparei vários anúncios de lojas e escritórios de ex pracinhas.Muitos voltaram da guerra para vida cotidiana e montaram seus próprios negócios.
Vai alguns fotos dos anúncios.

Notas interessantes do "Jornal Diário da Tarde"de 10 de maio de 1945.
Combateu com o Esquadrão de Reconhecimento da Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial. Era 2º Tenente, quando tombou em cumprimento do dever à frente de uma patrulha, na região de Montilloco nas encostas do maciço Belvedere La Torraccia a 20 de Novembro de 1944.
(clique na foto para ampliar)
O Resgate FEB

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Livreto O FEBIANO - Monumento Brasileiro de Pistoia

Livreto O FEBIANO, órgão divulgador da ANVFEB, numero 38 de julho de 1970.
Ilustrando a capa deste numero a fotografia antiga do Monumento Brasileiro de Pistoia  ma Itália, construído em 1966, no local do ex Cemitério Brasileiro de Pistoia, onde foram sepultados os nossos patrícios tombados no campo de batalha, durante a Segunda Guerra Mundial.
Anos após a transladação dos restos mortais de nossos heróis, para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial no Rio de Janeiro, o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, então Presidente da Republica, determinou a construção naquele local do artístico monumento.
O espirito patriótico, o interesse e a colaboração do Exmo Sr. Dr.FRANCISCO D' ALAMO LOUSADA, então Embaixador do Brasil na Itália, muito contribuiu para a realização da obra.
Diante da siginificação histórica da participação dos veteranos de guerra do Brasil, nas solenidades comemorativas do 25 anos do término da Segunda Guerra, em terras da Europa.
Este numero do "O febiano", alem das varias homenagens e comemorações em terras italianas, também os de Paris no 25 aniversario da Vitoria e da Paz, 26
 dos nossos ex combatentes desfilaram marchando com suas boinas azuis, o distintivo da cobra fumando e a flâmula da FEB, arrancando aplausos das multidões.
O grande contingente de ex combatentes franceses e o grupo brasileiro, tendo a frente o veterano Juarez, representante da AVFEB, passou sob o Arco do Triunfo prestando continência ao Exmo .Sr. Presidente George Pompidou.
Continuando o desfile pela Avenida Campos Elísios, sempre sob aplausos prestou nova continência, desta vez a bandeira do Brasil que tremulava no mastro do consulado brasileiro.

Este histórico livreto"O Febiano" foi uma doação do amigo Antônio Cláudio Lousada neto do Exmo Sr. Dr.FRANCISCO D' ALAMO LOUSADA, então Embaixador do Brasil na Itália.
(acervo O Resgate FEB)
Carta do Embaixador FRANCISCO D' ALAMO LOUSADA para o Sr. Roberto Cardoso (diretor responsável da revista O Febiano)
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O Resgate FEB

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Legião Paranaense do Expedicionário



Lote antigo de Legião Paranaense do Expedicionário.
Programação do Jantar de confraternização da Legião Paranaense do Expedicionário
do dia 30 de dezembro de 1953.
Folha comemorativa da IX Convenção Nacional dos Ex combatentes do Brasil de 1962, o Presidente Dr Mário Montanha Teixeira.
Folha comemorativa do Primeiro Congresso Nacional do Veteranos de Guerra  de 1953, o Presidente da Legião Paranaense era o GEM Jayme Santos.
(clique na foto para ampliar)


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Paulo Gomide Leite um dos 111 goianos da Força Expedicionária Brasileira


Pracinha goiano Paulo Gomide Leite 89 anos, nome de guerra: Gomide, conta muito do que viveu no front de guerra na Itália, onde combateu os nazistas na tomada de Monte Castelo,em 21 de fevereiro de 1945.

Entre os goianos que foram convocados para a Segunda Guerra Mundial, servindo na Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália, estava Paulo Gomide Leite. Nas páginas que seguem ele conta muito dessa saga, numa conversa descontraída com o editor Cezar Santos e o ex-governador Irapuan Costa Junior, colunista do Jornal Opção, amigo de longa data do entrevistado e um estudioso do tema.
Paulo Gomide lamenta os brancos na memória, mas num esforço traz à tona muita coisa do que viveu no teatro de guerra, histórias deliciosas, humanas, engraçadas, tristes, terríveis. Foram mais de 50 milhões de mortos nesta guerra, em que os países aliados combateram o chamado Eixo - Alemanha, Itália e Japão.
E como estamos em período eleitoral, o pracinha Paulo Gomide diz que é um combatente também pela democracia, informando que faz questão de votar apesar de não ser mais obrigado a fazê-lo. Seus votos: Iris e Serra — “Não suporto essa Dilma, que transpira falsidade”. A entrevista foi concedida na tarde de terça-feira, 27, na residência dele, no Setor Oeste, em Goiânia.
Irapuan Costa Junior — Quando o sr. foi convocado para a Segunda Guerra Mundial?
Fui convocado dia 8 de novembro de 1942. Recebi a carta de convocação nessa data. Eu era da classe de 1921, e todos dessa classe foram convocados. Todos que tínhamos 21 anos fomos convocados. Morava em Goiânia, recebi a carta: “Notifico-vos que fostes convocado para servir no Exército brasileiro. Deveis apresentar-vos até o dia 15 de novembro”... Mandavam apresentar no quartel de Ipameri. Começou a preparação para a Força Expedicionária, na época chamado Corpo Expedicionário, com a convocação, primeiro, da classe de 1921. O 6º Batalhão de Caçadores de Ipameri fornecia soldados para as unidades da Força Expedicionária Brasileira (FEB). No primeiro contingente escalado em Ipameri para o Regimento Sampaio, 80 homens, eu estava no meio. Fui para o Rio nesse contingente e fui incorporado ao Regimento Sampaio, no 1º Regimento de Infantaria.
Cezar Santos — Quantos dias de viagem para a Itália?
Foram 16 dias. Viajamos às 6 horas da tarde. Dia claro ainda tínhamos de trancar o beliche, não podíamos acender luz, havia uma iluminação vermelha, até as 6 horas da manhã do dia seguinte. Só depois de o dia clarear é que podíamos sair do beliche. Foram 16 dias nisso.
Cezar Santos — O sr. chegou à Itália que dia?
Chegamos à Baia de Nápoles no dia 6 de outubro de 1944. Desembarcamos do navio diretamente para uma flotilha imensa de barcaças que comportavam 400 soldados cada uma. Nessa flotilha fomos para Livorno, onde estava o campo de treinamento. Viajamos em torno de 16 horas na barcaça. Foi uma viagem terrível, a barcaça só faltava virar 180 graus. Todo mundo enjoou, eu me lembro que segurando no beliche, o sargento Sobrinho, do meu lado, já não tinha força para levantar e vomitava na caneca de tomar café. Nesse momento eu quase vomitei também. Resisti bravamente (risos...). Desembarcamos em Livorno. Só para mostrar como as coisas são, depois da guerra, chegando a Goiânia, peguei o avião para ir a Patos de Minas, certo de que era o tal, imune a enjoos, e quase me acabei de vomitar no avião daqui para lá (risos..) Ficamos em treinamento em Livorno até princípio de novembro, quando entramos em combate.
Irapuan Costa Junior — Seu batismo de fogo se deu que dia?
Meu batismo de fogo foi no dia 21 de novembro de 1944. Entramos em combate neste dia. Mas tivemos a maior escaramuça no dia 12 de dezembro, que foi o segundo ataque a Monte Castelo. O primeiro ataque a Monte Castelo tinha sido dia 29 de novembro, mas meu batalhão não participou. No dia 12 de dezembro, sim, entramos em combate. Nessa batalha tivemos de recuar, numa ação que depois foi condenada por vários oficiais, porque tivemos muito pouco apoio de artilharia e nenhum apoio de aviação. O que não aconteceu no dia 21 de fevereiro de 1945, quando teve muita aviação e muita artilharia e conquistamos Monte Castelo.
Irapuan Costa Junior — O sr. sentiu medo na trincheira?
Lógico que senti medo, na guerra todos têm o sentimento de medo. Aliás, tivemos instrução bem clara sobre isso. Um oficial falava não existe esse negócio de dizer que não tem medo, medo é consequência do instinto de sobrevivência. Se você está se sentindo ameaçado, você tem medo. Na guerra, o importante é controlar o medo, não pode deixar o medo tomar conta de você. E foi o que nós vimos na prática, que alguns soldados não conseguiam controlar esse medo. Mas o oficial comandante deles, e eu vi vários casos, recebiam isso como coisa natural, entravam em contato com o comandante imediato e remanejavam esses soldados para postos de comando atrás, na retaguarda. Isso porque esses soldados não tinham condições de ficar na linha de combate. O importante era o controle desse medo. Eu, felizmente, toda a vida consegui controlar isso, mesmo vendo granada cair perto de mim. Nunca entrei em pânico, nunca.
Cezar Santos — Nessa batalha em que vocês tiveram de recuar, houve muitas baixas, morreram muitos brasileiros?
Segundo soubemos, só no meu batalhão foram mais de 200 baixas, entre mortos e feridos. Eram três batalhões constituindo o regimento de ataque no dia 12 de dezembro. O Batalhão do Regimento Sampaio, que era o meu, o 2º. O Batalhão do 11º RI e o do 6º RI. Os três batalhões compondo um regimento de ataque. Mas como disse, sem nenhum apoio de aviação e pouquíssimo apoio de artilharia. Foi um fracasso. Pouco depois das 5 horas da manhã começamos a nos deslocar em frente ao Monte, e às 8 e meia já estávamos recuando. O comando chegava à conclusão de que não iríamos ter sucesso no ataque. Foram duas horas e meia de inferno.
O bombardeio dos alemães em nossa direção foi intenso. Me lembro que o tenente Hugo Xavier Pinto Homem, nosso comandante, no momento de escolher nossa posição, numa encosta longa, tinha um raio de uns 200 metros para alojar nossa companhia. Ele definiu o local e começamos a cavar com picareta e pá de campanha, cada um cavando seu fox holler (buraco que o soldado cava na área de combate para se colocar em posição de tiro com relativa segurança), seu abrigo individual. Quando já estávamos na metade, o tenente chega e diz vamos mudar, vamos mais para a direita. Saímos todos xingando, porque já estávamos na metade do trabalho e tivemos que recomeçar do zero. Fomos mais uns 200 metros para a direita, local que ele achou mais conveniente para colocar a companhia. Depois, quando recebemos a ordem de recuar, passamos pelo lugar onde teríamos ficado, e vimos que estava irreconhecível, era só crateras de granadas que tinham sido jogadas pelos alemães. Se tivéssemos permanecido ali, provavelmente a companhia toda teria sido dizimada. Ou seja, o tenente acertou em cheio quando determinou mudança da nossa posição. Nós o cumprimentamos.
Cezar Santos — Historiadores dizem que os 25 mil brasileiros que foram para a Itália nunca fizeram exercícios de combate como divisão, tampouco como regimento. Foi assim mesmo?
Não foram 25 mil, foram 30 mil soldados brasileiros para a Itália. Tivemos um treinamento, vamos dizer, pouco parecido com o que iríamos encontrar no teatro de guerra. Mas isso nós só veríamos depois. O armamento que tínhamos no Brasil foi considerado obsoleto. Quando chegamos à Itália, recebemos armamento moderno. Na minha função, dentro de grupo de combate, recebi uma metralhadora Tommy Gun (Thompson) com carregador de 30 tiros, calibre 45. Os demais soldados receberam fuzis Springfield, coisa que nunca tinha sido vista no Brasil. Nossos fuzis eram de 1908. Então na Itália tivemos um treinamento totalmente renovado diante das perspectivas que aguardávamos. A não ser a parte física, nada do que havíamos treinado no Brasil haveria de ser aproveitado lá. Foi tudo novo para nós.
Cezar Santos — Vocês treinaram com a força americana?
Não, o treinamento que fizemos foi com a oficialidade brasileira que havia estagiado no exército americano. Tudo o que eles aprenderam, a guerra moderna, transmitiram para nós. Acredito que não ficou nada a desejar nesse quesito.
Cezar Santos — Como foi a questão da comunicação dos brasileiros com os italianos? Era complicado?
Nunca tivemos problemas com os italianos, nunca. Pelo contrário, quando fizemos a ofensiva da primavera, em que a tropa avançou para o norte, um avanço meio avassalador, não tinha havido contato com os italianos naquela região, eles tinham uma ideia negativa sobre nós, porque os alemães, na recuada, diziam que nós éramos como bichos. Quando chegamos ao norte da Itália, os italianos da região viram que não tinha nada do que os alemães falavam sobre os brasileiros. E convivemos de maneira cordial, sem nenhum problema. Mas a imagem que antes eles tinham de nós, pintada pelos nazistas, era de selvagens, bárbaros. Conversei muito com italianos sobre isso. Eles me contavam como os alemães nos descreviam, era até engraçado, e eles comprovaram que não, que éramos iguais a eles, tínhamos afinidades. Interessante que não havia um lugar que não tivesse família com italiano radicado no Brasil. Isso nos aproximou.
Cezar Santos — O sr. se lembra de forma nítida de ter metralhado alemão, ter matado nazista?
Não. A única oportunidade que tive de atirar num inimigo, eu estava de sentinela avançada, numa posição alta, e recebi comunicado por telefone de que um espião, um prisioneiro, tinha fugido do quartel do comando e estava correndo para minha direção. E eu vi o cara correndo, cheguei a apontar a metralhadora, mas não atirei. Eu pensei ele vai cair na Segunda Companhia, mais à direita, e será preso, não vou atirar. E realmente o sujeito foi pego mais adiante. Foi essa a única oportunidade que tive de atirar diretamente num indivíduo. Não atirei e fiz bem. De resto, atirei à noite, de madrugada, no rumo dos alemães, de metralhadora, de morteiro, mas não em um alvo humano determinado.
Cezar Santos — O sr. viu companheiro morrendo, estrebuchando ao seu lado?
Sim, e até hoje me lembro da cena.
Cezar Santos — Sabia no nome dele?
Não sabia o nome porque não era da minha companhia. Ele tinha recebido estilhaço de uma granada na garganta. O pelotão de enfermeiros veio com a padiola para recolhê-lo. Vi que quando ele respirava, o sangue sai em esguicho pelo ferimento do lado esquerdo. Nunca me esqueci disso. E teve um colega, amicíssimo meu, o cabo Miguel Marotti Cabral, que a granada caiu no fox holler dele. Ele estava no fox holler, onde só cabe um soldado, e a granada caiu dentro. Só sobrou um pedacinho dele. O detalhe é que o cabo Marotti era o campeão de cartas da companhia. A noiva dele, Iracema, do Rio, lhe escrevia diariamente. Contei essa história para o Irapuan esses dias. Tinha um soldado pequenininho, em quem botamos o apelido de "Cinco liras" porque era a nota menorzinha, quadradinha. A gente falava Marotti, dá uma carta pro "Cinco liras" (risos). "Cinco liras" não recebia carta de ninguém, parecia um deserdado, e o Marotti recebia um montão de cartas. Pois bem, a granada dos alemães caiu dentro do fox holler do Marotti e só sobrou um pedacinho desse tamanho dele. Depois da guerra, no Rio de Janeiro, o tenente comandante tinha guardado as coisas dele, cartas, mala, e me chamou, 41, (meu número era 5041), vamos à casa da Iracema entregar as coisas do cabo Marotti. Eu falei não tenho coragem, tenente. Não fui. O tenente foi levar os pertences do Marotti, inclusive o amarrilho das cartas dela.
Cezar Santos — E deserção, houve deserção? O sr. ficou sabendo de algum brasileiro que fugiu da raia na Itália?
Lá comigo não. Mas você imagine, o Regimento Sampaio, que era o meu, tinha 6 mil homens. Quando recebemos ordem de prontidão para embarcar, mais de 20 dias antes, no dia do embarque, tivemos notícia de uma deserção. Ou seja, uma em 6 mil homens. E mesmo assim não sei se foi verdade.
Cezar Santos — O que mais o impressionou nesta participação na Segunda Guerra Mundial?
Foi o ensinamento dos superiores, de que quando se está na frente de batalha, tem de se preservar e ter foco no objetivo que está lá na frente, que é o inimigo. Mais nada. Você só deve pensar no que tem de fazer. A gente vira uma máquina. Quem não consegue isso e entra em estado de desespero incontrolável tem de voltar para a retaguarda. Era reconhecido como um estado normal, sem punição nem nada. Mas foram pouquíssimos casos assim.
Paulo Gomide Leite: “Não tenho traumas”
Foto: "O Popular"
Cezar Santos — E a tal de neurose de guerra, o trauma? Sabe-se de caso de ex-combatentes que ficam pirados. O sr. não sentiu nenhum trauma?
Tive nada.
Irapuan Costa Junior — O sr. só teve o trauma de audição (risos....)
Vim de lá com problema de audição no ouvido direito. Explodiu uma granada perto de mim, até hoje não sei como não fui atingido. Foi um ruído muito forte, a uns 6 metros de distância. Não estava esperando e não me protegi direito. O problema ficou muito tempo paralisado, mas de uns anos para cá começou a progredir, não só no ouvido direito, como também no esquerdo. Estou usando essas porcarias aqui por causa disso (mostra os aparelhos auditivos nos dois ouvidos).
Cezar Santos — O sr. teve namorada italiana lá?
Tive, tive, quem não teve (risos...). Inclusive disputei uma namorada com o major Sizeno Sarmento. Como era o nome dela? Tinha um baile, vinha o major e tirava a moça de mim. Daí a pouco eu ia lá e tirava ela do major. Tudo isso esportivamente. Quando ele veio em Goiânia, eu o lembrei desse episódio, ele deu boas risadas.
Cezar Santos — No final do baile o sr. ganhou a moça dele? Houve contato depois com ela?
(Risos...) Ficou na brincadeira, na lembrança dele e da minha. Não teve contato depois. Nós fomos para o norte da Itália. Mas em Piacenza eu arrumei uma namorada, Tina Zermani. Quando fomos para Nápoles, para voltar, ainda recebi duas cartas dela.
Cezar Santos — O sr. fez amigos italianos?
Sim, vários. Estudei italiano, comprei gramática, estudava o idioma. Fui com uns colegas a um convento, comprar vinho das freiras, e elas ficaram surpresas comigo, eu que não era descendente de italiano, conversando tão bem. Eu disse que estudava, comprei cartilhas. Eu falava bem o italiano.
Irapuan Costa Junior — O sr. falou em vinho, conte o episódio da adega na vila...
(risos...) Foi na Operação Primavera. Chegamos numa propriedade rural, um verdadeiro castelo, grã-fino, rico mobiliário. Os donos fugiram apavorados quando nós chegamos...
Cezar Santos — Eles fugiram por acharem que vocês eram alemães?

Nós tínhamos a imagem de bárbaros. Havia uma escada e eu fui o primeiro a subir. Fui batendo nos degraus com uma vassoura, por causa dos burn trapp (bombas que os alemães deixavam armadas), e senti o cheiro de álcool. Fui pelo cheiro. Entrei no aposento e vi que era uma adega, repleta de vinho. Estava de blusão, coloquei não sei quantas garrafas e desci. Tinha um berço embaixo, eu escondi as garrafas nele. O capitão veio revistar a tropa, tinha recebido um telegrama dando notícia do nascimento de sua filha, viu o berço e bateu nele entusiasmado, quando viu as garrafas. Que é isso aqui? Eu falei que eu que tinha colocado. E tive de contar onde era a adega (risos..). Todo mundo foi atrás. Imagine, aquele tanto de soldado, a companhia inteira. Duas horas depois, todo mundo estava bêbado.
Cezar Santos — Como era a relação com os americanos?
Nunca tivemos problemas com os americanos.
Irapuan Costa Junior — Como era divisão negra na força americana?
Na nossa força não havia divisão entre negros e brancos, era misturado. E no exército americano, os brancos não se misturavam com os negros. Tanto que havia a divisão negra, formada só com negros. O curioso é que os americanos brancos confraternizavam com o nossos negros, sem problema, mas não com os negros deles.
Cezar Santos — E a história de que os brasileiros receberam botas dos americanos, e essas botas eram muito grandes...
Não houve isso não, é folclore da guerra.
Irapuan Costa Junior — Mas se diz que os brasileiros inventaram colocar jornal dentro da bota...
Sim, isso é verdade, mas era para esquentar. Naquele frio danado, jornal esquenta, isso é verdade.
Irapuan Costa Junior — Também se diz que brasileiro inventou pegar os dois carregadores da metralhadora Thompson e passar fita isolante pra eles ficarem pregados. É verdade?
Não sei se isso é verdade, mesmo porque o carregador é único. Tira um para pôr o outro. Não sei como seria isso.
Irapuan Costa Junior — Pregando os dois, um fica pra cima e outro pra baixo. O sr. nunca viu isso lá?
Nunca vi isso. E olhe que éramos vários soldados cuja função exigia a metralhadora Tommy Gun. O carregador dela é de 30 tiros, calibre 45. Andávamos com sete carregadores, um na metralhadora e mais seis.
“Não sentíamos na pele a ação do governo na ditadura de Vargas”
Cezar Santos — Na questão política, vocês saíram do Brasil sob uma ditadura para combater um totalitarismo. Os soldados falavam sobre isso?
O que se chama hoje de ditadura de Getúlio Vargas, era um regime forte, mas não com a impetuosidade, digamos assim, do nazismo e do fascismo. Não sentíamos na pele a ação do governo. Era uma situação suave que tínhamos aqui.
Irapuan Costa Junior — Via gente com tendência ao comunismo?
Não vi isso. O universo nosso era muito restrito. A gente convivia com o pessoal da própria companhia. E mais ainda, convivíamos mais intimamente com o grupo de combate, uns 20 soldados. A relação era amistosa com os demais, mas não passava disso.
Cezar Santos — A expressão "a cobra vai fumar", vocês falavam disso? Como surgiu essa expressão?
Ninguém sabe de onde surgiu isso. O que tem é lenda, ninguém sabe exatamente de onde veio. Me lembro que quando cheguei ao Regimento Sampaio já tinha o distintivo a cobra fumando. Na Aeronáutica era o "senta a pua".
Cezar Santos — Na frente de combate a saudade de casa batia muito forte? Ficava doido para voltar?
Pensar pensava, mas a gente se virava na Itália.
Cezar Santos — O sr. conheceu o general Zenóbio [Euclydes Zenóbio da Costa, comandante da Infantaria brasileira na Segunda Guerra]?
Eu o vi uma vez em que ele fez revista à tropa. Ele era comandante da Infantaria. Não convivíamos com ele.
Irapuan Costa Junior — Conheceu o sargento Max Wolff [morto já quase no final da guerra, tinha o apelido de "rei dos patrulheiros", por sua habilidade nas patrulhas, missões de grupos pequenos para levantar informação sobre o terreno e o inimigo, fazer prisioneiros ou resgatar colegas feridos]?
O Max Wolff, do Paraná, né? Não conheci, ele era de outro batalhão. Tenho aqui, num dos jornais que guardo, uma citação de combate dele.
Cezar Santos — O sr. conheceu o Benvindo Belém, de Pindorama de Goiás (hoje Tocantins)?
Tenho vaga lembrança, porque meu contato era mais com os ex-combatentes aqui da capital. Com o pessoal do interior, pouquíssimas vezes tivemos contato. Já se passaram mais de 60 anos...
Cezar Santos — Em Belo Horizonte tem uma rua com o nome do Benvindo Belém. O sr. sabe se em Goiânia tem alguma rua em homenagem a algum pracinha?
Não sei...
Irapuan Costa Junior — Tem a Ademar Ferrugem, em Campinas.
O Ferrugem? 

Não me lembro se ele foi...
Irapuan Costa Junior — Sim, ele morreu na Itália. Pensei que ele fosse da FAB, mas não, era da FEB mesmo.

É.
Cezar Santos — Ao voltar da guerra o sr. foi trabalhar em quê?
Quando fui eu era funcionário da Companhia de Seguros Minas Brasil. O decreto do governo, a ditadura de Getúlio Vargas, dava ao convocado a opção de ter o soldo ou o salário da empresa onde trabalhava. O vencimento do soldado era uma porcaria e optei pelo salário da empresa, onde eu ganhava 400 mil réis mensais. A única coisa meio louca que fiz depois da guerra e que ao chegar, no dia seguinte, pedi demissão da Minas Brasil. Eles pelejaram para que eu desistisse da demissão, mas não voltei atrás. Até hoje não sei o que deu em mim. Entrei na empresa no início. Se tivesse ficado chegaria a diretor.
Cezar Santos — Mas o sr. foi fazer o quê?
Nada, não fui fazer nada.
Cezar Santos — Mas vocês tinham um vencimento como pracinhas?
Nada, naquela época nada.
Cezar Santos — Quando o sr. passou a receber algum dinheiro como ex-combatente?
Faz pouco tempo, há uns 15 ou 20 anos. Todo soldado passou a segundo-tenente, e aí passei a receber o soldo equivalente. Recebo hoje a reforma de segundo-tenente, mas se eu dependesse só dela estaria frito (risos...).
Irapuan Costa Junior — O sr. não quis ir para o Fisco. Quando eu fui governador, nomeei todos os pracinhas para o Fisco.
Eu me lembro. Na época eu tinha feito concurso para assistente sindical no Ministério do Trabalho, que era equivalente a inspetor do trabalho. E depois fiz concurso para agente fiscal do imposto de consumo, que hoje é auditor da Receita Federal. Nesse cargo eu me aposentei e é essa aposentadoria que mantém minha troupe.
Cezar Santos — O sr. gosta de ler esses livros sobre a Segunda Guerra? Qual o sr. acha melhor?
Tenho várias obras sobre a guerra. Não classifico uma ou outra como melhor ou pior. Tem uma que me comove, que faz o relato dos que morreram, chama-se "Eles não voltaram" (de Jamil Amiden, 320 pags., Ed. Riachuelo, 1960). Tem a relação deles e vários eu conheci. Ta lá na minha estante.
Cezar Santos — O sr. voltou à Itália depois da guerra?
Duas vezes, estive em alguns lugares onde lutamos. Onde eu queria ir mesmo eu não fui, algumas regiões... minha memória está falhando demais... Queria ter ido especialmente ao sul. No norte estive em Piacenza, algumas cidades por perto, como Parma e outras. A Itália é uma terra muito bonita, sem dúvida nenhuma.
Irapuan Costa Junior — O dia em que terminou a guerra, vocês estavam onde? Fizeram festa?
No dia 8 de maio de 1945 estávamos em... acho que estávamos em Piacenza. Recebemos a notícia meio duvidosa, ficávamos sem saber ao certo se tinha acabado a guerra ou não. Até que se confirmou, foram uns dois ou três dias.
Cezar Santos — O sr. ficou sabendo que meses depois, os alemães ainda abateram um navio brasileiro, o Bahia, matando vários brasileiros?
Depois do armistício? Lembro de ver vários navios afundados, mas não me lembro disso. Na época, a quinta coluna quis espalhar a notícia de que os navios estavam sendo afundados pelos americanos, botando culpa nos alemães, para o Brasil se posicionar contra a Alemanha. O que era uma bobagem.
Irapuan Costa Junior — O sr. trouxe alguma lembrança da guerra, algum souvenir tomado dos alemães?
Eu tinha, mas me desfiz lá mesmo. Era algo de que nem me lembro mais. Mesmo porque o comando anunciou que seria feita a revista no embarque na volta, e que se alguém fosse encontrado com algum armamento alemão capturado em combate, ficaria mais seis meses para receber baixa. Mas imagine, 6 mil homens, claro que eles não iriam abrir o saco de bagagem para fazer essa revista. Demoraria um ano. E não foi feito mesmo. Todos pensaram que seria feita, mas não foi. Eu tinha uma pistola Mauser alemã, mas com medo dessa revista, deixei ela no alojamento. Tinha um cômodo cheio de coisas e joguei a Mauser lá em cima.
Cezar Santos — O senso comum diz que guerra é sempre algo terrível. Mas ficou algo de bom para o sr. passar por essa experiência?
Posso dizer que, ao contrário de muitos que conheci, que sofreram depois as consequências de ter ido à guerra, eu nada sofri. Aí já me considero um privilegiado. Fui convocado como todos os nascidos em 21, e cumpri minha obrigação.
Irapuan Costa Junior — O sr. é da opinião de que a Segunda Guerra democratizou o Brasil? Serviu para derrubar Vargas?
Sem dúvida nenhuma. A nossa democratização foi acelerada pela Segunda Guerra. A guerra teve pelo menos esse caráter positivo para nossa realidade.
Fonte:
Foto: Fernando Leite/
Jornal Opção
Entrevista: Irapuan Costa Junior e Cezar Santos. 

domingo, 14 de maio de 2017

Inseticida em pó da Segunda Guerra

Inseticida em pó de fabricação americana para se usada na linha de frente, para proteger de insetos e quando a impossibilidade de banho, para matar os insetos que surgiam do contato com a terra e sujeira, eficaz em matar piolhos, mosquitos e etc.
Foi entregue também para a FEB.

(acervo O Resgate FEB)
(clique na foto para ampliar)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O DIA DA VITÓRIA. 8 de maio de 2017.


Há exatamente 72 anos no dia de hoje, as forças aliadas que combateram contra o nazi-fascismo durante a Segunda Guerra Mundial, dando fim de uma guerra que iniciara em 1939.No maior conflito mundial ocorrido em época contemporânea, a participação brasileira com a Força Expedicionária Brasileira, foi uma força militar aero-terrestre constituída na sua totalidade por 25.834 homens e mulheres, que durante a Segunda Guerra Mundial foi responsável pela participação do Brasil ao lado dos aliados na campanha na Itália.
A FEB sob o comando do marechal Mascarenhas de Moraes, partiu em vários escalões para a Itália. Os soldados brasileiros são destacados para a Linha Gótica, ao nordeste da Itália, próximo a Bolonha, uma longa faixa de 250 quilômetros fortemente armada. Lá estavam os grandes desafios dos brasileiros, Monte Castelo e Montese.
Ë necessário lembrar do papel exercido também pelas mulheres brasileiras. Participaram da FEB 74 enfermeiras, que juntamente dos médicos e padioleiros, compunham o Serviço de Saúde da FEB.
A FEB foi modelar, elogiada pelo V Exército Americano e cumpriu o seu papel na defesa das liberdades.
Que do 8 de maio, o grito de Vitória continue a ecoar e empolgar toda a humanidade.

O DIA DA VITÓRIA. 8 de maio de 1945.
Pôster da Vitoria, feito na Itália pelo 6º Regimento da FEB comemorando a Vitória dos aliados na frente europeia na Segunda Guerra Mundial. Desenho original do sargento Catani da FEB.
(acervo O Resgate FEB)
Minha homenagem especial ao tenente Pedro Rodrigues de Curvelo (MG) que esta sendo velado no Dia da Vitória, descansa em paz soldado.
O herói nunca morre!!!

terça-feira, 2 de maio de 2017

Jornal "Folha Expedicionária"


Jornal "Folha Expedicionária" de Campo Belo (MG), foi criado com a intenção única de ajudar os expedicionários.
Foi o primeiro e único jornal dos ex combatentes do Brasil, um jornal dos expedicionários para os expedicionários.
Diretor e redator responsável José lopes Dias.
Impresso nas oficinas da gráfica Campobelense.
Com matérias sobre a participação brasileiras, relatos e depoimentos de veteranos.
O jornal que eterniza os feitos dos nossos soldados nos campos da Europa.

(acervo O Resgate FEB)
Jornal Folha do Expedicionário, ano I de 9 de agosto de 1946 - numero 10
Jornal Folha Expedicionária,  ano I de 30 de agosto de 1946 - numero 11.
(clique na foto para ampliar)


terça-feira, 25 de abril de 2017

Museu Histórico de Montese


Instalado na antiga Fortaleza dos Montecuccoli (séc. XIII) é um museu dedicado aos acontecimentos históricos e a cultura local. A seção mais ampla é relacionada sobre os temas da Segunda Guerra Mundial e dos acontecimentos bélicos ocorridos na Linha Gótica e nas áreas montanhosas. Particularmente a sala principal fica uma parede expositiva com vitrines que contém objetos e roupas utilizados pelos soldados que combateram nestas montanhas, além de vestígios de batalha encontrados na região.Uma sala é dedicada a Força Expedicionária Brasileira (FEB) a qual deve se a libertação de Montese. Aqui estão presentes duas reconstruções em diorama e uma maquete que assinala o avanço das tropas aliadas nos cumes da área.
Após recente reforma o Museu equipou com instalações multimídia e audiovisuais e foi ampliada a área de exposição com novos dioramas na sala de entrada,  dedicados aos protagonistas da guerra nestas áreas.

*Diorama - é um modo de apresentação artística tridimensional, de maneira muito realista, de cenas da vida real para exposição com finalidades de instrução ou entretenimento.
(clique na foto para ampliar)
Kits pós guerra de informação para o reconhecimento de minas
Detalhe de uma mostruário do FEB
Diorama de um ponto de verificação alemão
A Fortaleza de Montese - Museu da Linha Gótica
A Fortaleza de Montese - Museu da Linha Gótica
Diorama de um posto de comando de FEB
A fortaleza de Montese

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Livreto da "Semana da Vitória" de 1955

Livreto da "Semana da Vitória" de 1955, contendo o roteiro da FEB, estáticas sobre a FEB, a mensagem do general Mark Clark pelo termino da guerra ao General Mascarenhas de Moraes.Muito interessante.
(acervo O Resgate FEB)
(clique na foto para ampliar)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Eles desonraram a farda da FEB



A história de dois pracinhas que quase foram para o pelotão de fuzilamento por homicídio e estupro.

Na atualidade, passados mais de sete não décadas do fim da Segunda Guerra Mundial, a visão que a maioria do povo brasileiro possui da FEB – Força Expedicionária Brasileira, e de sua ação nos campos da Itália é muito positiva
Primeira e até hoje única força de combate latino-americana a lutar em solo europeu, a ação da FEB está registrada em inúmeros livros de memória, documentários e filmes que enaltecem a participação de simples brasileiros, a maioria deles saídos dos campos de um país ainda prioritariamente agrário, para combater no maior conflito da história da humanidade.Aqueles que lá estiveram merecem ter por parte dos familiares, amigos, das autoridades e de todos os brasileiros o amparo, apoio e atenção pelo que fizeram nos campos de combate.


Adão Damasceno Paz e Luíz Bernado de Morais, assassinaram e estupraram envergonhando o uniforme da FEB.

Mas nem todos cumpriram com o seu dever.
SEGUINDO  PARA  A  GUERRA
Em 1942, em meio aos vários afundamentos ocasionados pela ação de submarinos alemães e italianos e a mortes de muitos brasileiros, o sentimento provocado por estas tragédias fez com que o povo apoiasse sem contestação a ida de nossas tropas para lutar contra os nazifascistas.Homens e mulheres de várias partes do país foram convocados e aceitaram o compromisso de envergar o uniforme das nossas forças armadas para ombrear-se com outras nações aliadas pelo fim do conflito.
Muitos jovens, que anteriormente sequer conheciam algo além da vila mais próxima da fazendinha em que viviam com seus familiares, que utilizavam a enxada como instrumento de trabalho e o chapéu de palha para se protegerem do sol, foram deslocados para outras terras, onde existiam outros sotaques e outros pensamentos. Lá vislumbraram novos horizontes, receberam o fuzil para realizar o seu novo ofício e colocaram o capacete de aço na cabeça.
Essa situação, extremamente comum dentro das fileiras da FEB, se repetiu com Adão Damasceno Paz e Luís Bernardo de Morais, ambos agricultores e oriundos respectivamente da regiões rurais das cidades gaúchas de Santiago e São Borja.Eles seguiram para o Rio de Janeiro, então capital do país, onde iniciaram um forte e pesado treinamento, aguardando o momento de embarcarem para além mar. Nos momentos de folga os dois rapazes seguiam a conhecer as belezas e o mundo novo que existia na cidade maravilhosa.
Em 2 de julho de 1944, Adão e Luís estavam dentro de um enorme navio como membros do primeiro escalão da FEB e junto a eles estavam milhares de pracinhas vindos de todas as partes do país.
PROTEÇÃO  DO  GENERAL  MASCARENHAS  DE  MORAIS
Não sei se os dois agricultores se conheceram ainda no seu estado de origem, apesar das suas cidades serem muito próximas, ou no campo de treinamento no Rio, ou ainda no navio transporte que os levou a Itália. Mas na pátria de Dante Alighieri, aonde chegaram a Nápoles no dia 16 de julho de 1944, consta nas informações apuradas que os dois homens foram designados para uma função na FEB que muitos consideravam de extrema honra e importância. Eles ficaram lotados no Pelotão de Defesa do Quartel General, compondo a guarda pessoal do comandante da 1ª Divisão de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira, o general João Batista Mascarenhas de Morais.Segundo a narrativa dos dois ex-militares, que se encontra na edição da “Revista da Semana”, de 16 de julho de 1949, trabalhar na proteção do general Mascarenhas de Morais não era tarefa fácil, pois o comandante estava sempre em deslocamento por toda área de atuação das FEB no norte da Itália.

Ex pracinha Luíz diante da imagem de sua padroeira, Nossa Senhora da Graça 

A todo o momento aconteciam deslocamentos do general, onde durante quatro meses, nas próprias palavras de Luís Bernardo de Morais, os dois rapazes protegeram o general Mascarenhas em suas viagens a linha de frente. Para eles era muito fatigante, pois “o general não parava”.qual Adão e Luís estavam designados, acredito que eles não entraram efetivamente em combate contra as forças nazifascistas.

Até porque ao general Mascarenhas cabia à função de comandar sua tropa, recebendo ordens do general norte-americano Mark Clark, então comandante do 5º Exército, força militar aliada a qual a nossa FEB estava subordinada na Itália. Não cabia ao general comandante da Força Expedicionária Brasileira se expor desnecessariamente as balas inimigas, ou arriscar uma desastrosa captura e criar sérios entreveros a participação brasileira naquele cenário.
A  VERSÃO  DOS  CRIMINOSOS  PARA  A  IMPRENSA 
Em meio a estas andanças, em um dia de folga, segundo eles “Lá pelos lados de Porretta”. Informaram também que passaram dos limites no consumo de álcool, que era franco e facilmente encontrado. Alterados pela bebida, os dois rapazes se sentiram estimulados a procurarem mulheres e saciarem suas vontades sexuais.Na reportagem da “Revista da Semana”, Adão e Luís comentam que a miséria na Itália era intensa e a fome grassava impiedosamente entre os seus habitantes. Premidas pela necessidade, segundo os dois pracinhas, as moças italianas davam preferência aos soldados norte-americanos, mais ricos e com mais comida.
Afirmaram que havia uma casa onde eles sabiam que havia “jovens italianas” que saiam com soldados da U.S. Army. Alterados e encorajados pela bebida, os dois brasileiros foram em busca das jovens, desejosos de receberem os mesmos favores que eram dispensados aos estadunidenses.Na matéria os dois soldados pareceram ficar particularmente irritados com a atitude dos soldados gringos, que passavam acintosamente na frente dos militares brasileiros, levando mais de uma destas mulheres. Percebe-se que eles tinham uma certa inveja dos americanos.
Luíz acompanhando as notícias das praias cariocas
A reportagem não diz o número exato de mulheres que estavam no local, mas informa que os dois soldados brasileiros entraram na casa a noite, armados de submetralhadoras.
Surpresas, as italianas não tiveram como reagir e durante meia hora os brasileiros praticaram várias sevícias contra elas.
Enquanto um montava numa das vítimas o outro ficava de guarda. Nisso Luís ouviu um barulho, saiu para ver o que ocorria e percebeu o vulto de um homem que se aproximava. Em meio gritaria que se formou, ele apagou as luzes do recinto e metralhou a estranha figura.
Os dois soldados brasileiros fugiram pela praça principal deste lugarejo próximo a cidade de Porreta e correram por mais de meia hora, até terem a certeza que não eram perseguidos.Ao repórter da “Revista da Semana”, Hélio Fernandes, Adão e Luís afirmaram que logo o comentário do ocorrido no lugarejo italiano foi intenso. Em pouco tempo o pessoal do pelotão da Polícia do Exército incorporada a FEB, comandado pelo 1º tenente José Sabino Maciel Monteiro, estavam recebendo informações sobre a situação e os dois militares foram capturados.
A  VERSÃO  DA  JUSTIÇA  MILITAR
A reportagem da “Revista da Semana” é muito falha em termos de detalhes, além de extremamente tendenciosa, que pudesse esclarecer mais sobre este assunto. Mas no trabalho de conclusão de curso realizado em 2003, pela historiadora Carolina Mendes Pereira, da Universidade Federal do Paraná, e intitulado “Delitos sexuais cometidos pelos soldados brasileiros em campanha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial: do estupro e homicídio ao indulto” (ver http://www.historia.ufpr.br/monografias/2002/carolina_mendes_pereira.pdf) e no próprio Boletim do Exército nº 13, de 31 de março de 1945 (páginas 948 a 953), nos excertos do Parecer n. 8 da Procuradoria Geral (transcritos no blog (http://froilamoliveira.blogspot.com.br/2011/10/condenado-morte.html), encontramos informações bem mais detalhadas sobre o caso.Os dois brasileiros confessaram, segundo o Boletim do Exército, “friamente e com abundância de detalhes” que o fato ocorreu na pequena aldeia medieval de Madognana, distante quase quatro quilômetros da comuna de Granaglione, província da Bolonha, na região italiana da Emilia-Romagna, nordeste daquele país e não muito distante da cidade de Porretta-Termi.


Adão e Luíz e jornalista Itélio Fernandes 
Segundo o trabalho de Carolina Mendes Pereira, os soldados avistaram a vítima, a menor Giovanna Margelli, com 15 anos de idade, por volta das 16 horas, enquanto esta passeava pela rua acompanhada da jovem Vittoria Mendola. Os pracinhas brasileiros seguiram as duas garotas até a casa em que Giovanna estava hospedada e onde ambas haviam entrado.Inicialmente a dupla se limitou a agradar as pessoas que ali estavam, oferecendo um pedaço de chocolate e dirigiram algumas poucas palavras. De forma vil e dissimulada declararam que não tivessem medo “pois os brasileiros eram bons”, fizeram mais alguns comentários e se retiraram, afirmando que iriam entrar em serviço.

“QUERIA  PEGAR  A  MULHER”
Ao Boletim do Exército informaram que logo após o jantar muniram-se de metralhadoras portáteis e dirigiram-se a casa onde já haviam estado à tarde, em procura de uma mulher, que segundo informaram lhes “tinha feito cara feia”.Na noite de inverno rigoroso os soldados entraram na casa de número 231, às 20h30 de 9 de janeiro de 1945, “movidos por intuitos que não deveriam ser de natureza nobre”, pois seguiram para o seu intento utilizando o chamado ”passa montanha”, gorro com abertura apenas nos olhos.
Neste segundo momento naquela casa, os moradores convidaram-nos a entrar e a aquecer-se junto ao fogo, talvez esperançosos de receber alguma migalha que lhes mitigasse a fome. Encontraram na residência Giovana, a prima Tonina, de 23 anos, o filho de Tonina, Ferdinando, de 3, os primos Stefano, de 20, e Giuseppe, de 14, e a avó doente, Maria Rita.

Adão 
A seguir Adão Damasceno disse a Luís Bernardo que era melhor apagar a luz de uma lamparina a querosene dizendo “Vamos apagar a luz de uma vez para pegar a mulher no escuro”, esta era Giovanna Margelli. Consta no Boletim do Exército que Luís repetiu a ordem de apagar a luz para Stefano, mas o rapaz não entendeu. O soldado da FEB então deu uma rajada de metralhadora que destruiu a lamparina e todas as pessoas, menos Giovanna, fugiram atemorizadas. Adão conduziu a jovem para o quarto e passou a saciar os seus “instintos carnais”.Para facilitar a conclusão deste crime covarde, Luís ficou de guarda em uma porta onde ficava de olho no movimento fora do recinto.
Certamente alertado pelos disparos e pelo terror transmitido por quem conseguiu fugir, Leornado Vivarelli, de 57 anos, tio da jovem que estava sendo estuprada, veio em seu auxílio completamente desarmado. Ao ser visto pelo soldado brasileiro este não pestanejou e disparou uma rajada de balas que atingiu o idoso no pescoço e no ouvido. Após o assassinato Luís gritou: “Apressa-te (Adão) que já matei um homem”.
Stefano sustentou outra versão. Afirmou que ouviu o soldado gritar: “Andare via (vá embora)!”. “Após uns segundos, ouvi a descarga de metralhadora. Depois, o silêncio.
No depoimento os soldados disseram que, à exceção de Giovanna, todos “fugiram”. O jovem Giuseppe deu outra versão. Relatou que foi trancado no banheiro por Luiz Bernardo e depois empurrado a um quarto, onde foi obrigado a pular da janela. O soldado ainda teria disparado, sem acertá-lo. Todos relataram que Adão agarrou Giovanna. Ela pediu socorro a Stefano, que alegou nada ter feito por estar desarmado.
Em meio a confusão os soldados inverteram os papéis. Adão foi fazer sentinela. Luiz Bernardo seguiu para o quarto, onde passou meia hora com Giovanna. Depois, disse a Adão que a havia violentado. Mas admitiu em depoimento, versão confirmada pela jovem, que estava embriagado e não conseguiu praticar o ato. Mentiu por “amor-próprio”, ressaltou o auditor do inquérito – uma junta médica da FEB confirmou, sete dias depois, a violência praticada por Adão. Aos médicos, Giovanna disse que foi “tomada pelo terror”.

Adão em uma cela 
Após isso os soldados voltaram para o acampamento de sua unidade. Na saída de Madognana, Luiz Bernardo deixou cair um cachecol e uma lanterna e Stefano os achou.
Já no dia seguinte o irmão de Leonardo Vivarelli vai ao encontro de oficiais da FEB e apresenta uma queixa dos crimes praticados. Ele entregou no Quartel-General da 1.ª Divisão de Infantaria Expedicionária, em Porreta Terme, cidade cercada por montanhas controladas pelo exército nazista, os materiais encontrados por Stefano. Detidos, os acusados confessaram tudo e eles são prontamente presos pela Polícia do Exército.
Embora ressalte a embriaguez, forma de evidenciar o desrespeito às normas militares, o processo destaca que o crime ocorreu logo após o jantar, não deixando claro quando e quanto tomaram de vinho.
Ouvido no inquérito como testemunha, o cabo Renan Alves Pinheiro disse que, na tarde do dia do crime, os dois soldados na verdade perseguiram Giovanna pelo vilarejo. Perguntados se podiam justificar sua inocência, Adão e Luiz Alberto ficaram em silêncio. O advogado deles, 2.º tenente Bento Costa Lima Leite de Albuquerque, chegou a afirmar que não houve crime doloso pois Giovanna não teria reagido.
Os dois soldados foram celeremente julgados pela justiça militar brasileira, que na época possuía o Conselho Supremo de Justiça com sede em Nápoles. O auditor do inquérito, tenente-coronel Eugênio Carvalho do Nascimento, condenou os dois à morte por matar um homem para garantir violência carnal. Consta que os dois envolvidos possuíam históricos que registravam prisões por embriaguez e saídas sem autorização do quartel.
Na reportagem publicada no jornal paulistano O Estado de São Paulo, edição de domingo, 25 de agosto de 2012, comemorativa aos 70 anos da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o repórter Capixaba, Leonencio Nossa, atualmente trabalhando na sucursal de Brasília do jornal O Estado de São Paulo, informa que uma dezena de estupros foram praticados por pracinhas na Itália. Mas apenas o caso de Adão e Luiz Bernardo foi julgado devido aos assassinatos. O jornalista não aponta detalhes.Desde o dia 6 de novembro de 1944, quase quatro meses após a chegada da FEB na Itália, o Quartel-General do general Mascarenhas estava na pequena cidade de Porretta-Termi. Deste ponto o bravo general comandou o primeiro dos cinco ataques que iriam tomar Monte Castelo dos alemães, fato ocorrido somente em 21 de fevereiro de 1945. Como estes dois homens faziam parte da guarda do general Mascarenhas de Morais, imagino o quanto deve ter sido difícil para o comando da FEB, em meio aos inúmeros problemas relativos aos combates de Monte Castelo, saber que dois membros da sua guarda pessoal estavam envolvidos em homicídio e estrupo.
PENA  CAPITAL
Segundo o trabalho da historiadora Carolina Mendes Pereira, no caso dos soldados Adão e Luís, o crime de estupro por eles cometidos estava descrito nos artigos 192 e 312 do Código Penal Militar vigente em 1944, isto é, código das normas aplicadas aos crimes cometidos na guerra.
Os artigos acima mencionados apontam que:
Art. 192. Constranger mulher a conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça: Pena – reclusão, de três a oito anos.
Art. 312. Praticar qualquer dos crimes de violência carnal previstos nos arts . 192 e 193, em lugar de efetivas operações militar: Pena – reclusão, de quatro a doze anos.
Parágrafo único. Se da violência resulta:
Lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão, de oito a vinte anos;
Morte: Pena – morte, grau máximo; eclusão de quinze anos, grau mínimo.
A historiadora aponta que no caso da execução da pena capital em crimes militares ocorridos em tempo de guerra, a pena seria realizada através do fuzilamento do culpado. Se ela é imposta em zona de operações de guerra, pode ser imediatamente executada, quando exija o interesse da ordem e da disciplina militar.Carolina Pereira mostra que um total de 66 sentenças foram proferidas contra militares brasileiros da FEB, sendo que metade foi lavrada na Itália e outra metade no Rio de Janeiro. Das 33 condenações conhecidas na Itália, duas foram proferidas em Pisa, 14 em Pistóia, sete em Pavana, duas em Vignola e oito em Alessandria. A primeira destas condenações ocorreu em Pisa, em 2 de outubro de 1944.

Adão junto a imagem de São Jorge
Já em relação ao caso aqui comentado, a historiadora aponta que pela justiça militar, Adão e Luís deveriam ter sido sumariamente fuzilados na própria frente de combate.Na análise dos documentos do processo, percebe-se no texto de um dos votos dos membros do Conselho Supremo de Justiça Militar, que a execução da pena de morte destes dois elementos na frente de combate era aceita. Vemos isso claramente no Diário de Justiça, Ano XX, março de 1945 – Sentença de Pena de Morte em tempo de Guerra, apelação nº 21, da 2º auditoria militar da 1º D. I., cujo relator, o general Boanerges Lopes de Souza, assim se pronunciou em 6 de março de 1945:
“Votando, como voto, pela confirmação da sentença, defendo a honra do Exército e a própria civilização brasileira. Não fossem os embaraços opostos pela moderna legislação, estou certo de que o comandante das forças brasileiras na Itália teria, com grande proveito para a boa ordem de suas tropas, feito fuzilar, sem quaisquer delongas, esses criminosos.”
SOFRIMENTO   DAS   MULHERES  NA   SEGUNDA   GUERRA  MUNDIAL
O hediondo crime de estrupo durante a Segunda Guerra Mundial foi quase um lugar comum em todas as frentes de combate, entre 1943 e 1945, as normalmente belas mulheres italianas foram duramente atacadas em seu país.
Na região onde existia o setor de defesa alemão denominado “Linha Gótica”, em seis meses do ano de 1944, em particular em torno Marzabotto, bem como nos Apeninos, Ligúria e Piemonte, foram registrados 262 casos de estupro realizados pelos chamados de “Mongóis”, os desertores soviéticos de origem asiática, que passaram a servir no exército alemão.
Mas as italianas, tal qual a mulher atacada pelos brasileiros Luís e Adão, sofreram igualmente nas mãos de tropas aliadas. Segundo este site, entre 15 e 17 de maio de 1944, os soldados coloniais franceses que chegaram à cidade de Esperia, antiga sede da 71º Divisão de Infantaria da Wehrmacht (Exército Alemão), protagonizou o estupro contra muitas mulheres que chocou os comandantes aliados.Até mesmo nas forças armadas norte-americanas houve inúmeros destes casos. A maioria das ocorrências de pena de morte envolvendo tropas americanas durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu devido a estupros ou assassinatos contra mulheres, a maioria delas alemães.
De acordo com documentos no Arquivo Nacional daquele país, só no teatro de guerra europeu, o exército dos Estados Unidos condenaram 443 de seus próprios soldados à morte por crimes de guerra. Destes 96 foram executados, a maioria pela forca. O número total de soldados americanos executados em todas as frentes de combate durante aquele conflito foi de aproximadamente 300.Para os americanos a desonra envolvida nestes casos era uma coisa era tão séria, que aqueles que foram executados estão enterrados fora de seus vários cemitérios militares. As autoridades militares se recusaram a dar a estes criminosos o privilégio de serem enterrados ao lado dos que caíram em combate.
Um caso típico envolve o estupro de uma mulher italiana na Sicília. Quatro membros de uma unidade de soldados negros que havia desembarcado na invasão daquela ilha italiana em 9 de Julho de 1943, entraram uma tarde na pequena aldeia de Marretta, perto da cidade de Gela. Lá David White, Armstead White, Harvey L. Stroud, e Willie A. Pitman, estupraram e surraram seriamente uma mulher italiana diante de seus familiares. Mais tarde todos os quatro foram julgados e condenados por estupro. Em pouco mais de um mês todos quatro militares foram sumariamente executados por enforcamento.
DE  VOLTA  AO  BRASIL
Mas voltando ao caso dos brasileiros Adão e Luís. Consta que estes foram enviados para uma prisão em Roma, destinada a receber os sentenciados a morte pelas forças aliadas e ali aguardaram o destino.Segundo os dois condenados, teria sido um “Cardeal”, do qual não é citado o nome, que conseguiu transformar a pena dos dois brasileiros em 30 anos de prisão. Não encontrei nada que corroborasse esta afirmação da entrevista feita pelo jornalista Hélio Fernandes, mas é certo que eles não morreram diante de um pelotão de fuzilamento.Em julho de 1945 os dois foram então embarcados no navio brasileiro Pedro I, junto com outros 900 pracinhas. Durante a travessia oceânica eles ficaram sob a guarda da Polícia do Exército, que além dos soldados Adão e Luís custodiavam outros 54 condenados. Constavam da lista um segundo tenente dentista, um suboficial, um sargento, três cabos e os outros eram soldados (ver a relação completa acima, retirada do jornal carioca “Correio da Manhã”, pág. 9, edição de quarta feira, 25 de julho de 1945).
Segundo a historiadora Carolina Pereira, em 3 de dezembro de 1945, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto 20.082, que concedeu indulto a todos os integrantes da FEB que cometeram crimes durante a Segunda Guerra Mundial, excluindo os crimes de natureza gravíssima ou infamante, como os praticados por Adão e Luís.
Já no Rio de Janeiro os dois passaram a cumprir os 30 anos de pena na então conhecida Penitenciária Central do Distrito Federal, antiga Casa de Correção, que em 1957 seria batizada como Penitenciária Lemos de Brito.Segundo a reportagem Adão e Luís tinham bom comportamento, eram respeitados pelos companheiros de cadeia e não criavam problemas para o Diretor Castro Pinto. Como mostra de boa conduta naquele recinto penitenciário, ambos possuíam um distintivo no formato de estrela que envergavam no peito
Em 1949 eles aguardavam um indulto presidencial, que havia sido positivamente recomendado pelo Conselho Penitenciário do Distrito Federal . Mais tarde o processo de indulto restituiu a liberdade aos ex-pracinhas.
Após deixar qualquer prisão, após o cumprimento de qualquer pena imposta, o antigo sentenciado está livre para conviver novamente com a sociedade. Mas no caso destes homens, aparentemente o fardo foi muito grande.
Segundo a reportagem de Leonencio Nossa, os dois ex-soldados da FEB morreram na década de 1990. Consta que Adão vivia solitário, andava em dificuldades. Anos depois da guerra, foi acusado de furto. Na audiência, o juiz perguntou se já havia sido processado. “Fui condenado à morte.” O juiz se assustou: “Que história é essa? Brasil não tem pena de morte”.
CONCLUSÃO
A historiadora Carolina Pereira aponta que a guerra não produz só heróis. Os conflitos constroem e desmascaram monstros, embalam pesadelos, dão visibilidade à parte mais vil e desumana do ser humano.
As guerras não são apenas constituídas de batalhas, mas, também, de incessantes horas de espera e vigília dos atores, direta ou indiretamente, no front, remete à possibilidade da existência de um convívio social.Os combatentes interagem não só dentro do próprio corpo do exército, mas também com a população local onde estão alojados. Pode-se dizer que nestes cenários são travadas outras batalhas em que tais populações recebem o rebatimento das condições físicas e emocionais dos militares. Para a historiadora a população civil também é vítima do estado de guerra.O falecido jornalista Joel Silveira, correspondente de guerra brasileiro na Itália, deixou registrado em um recente documentário produzido pelo repórter Geneton Moraes Neto, que na retaguarda as brutalidades podem ser piores do que na frente de combate. E realmente ele tinha razão. Naqueles dias em solo italiano o ato sexual era mercadoria de troca, pois a miséria e a devastação causada pela guerra fizeram com que a população local trocasse o corpo por comida e proteção.
Sabemos que todas as instituições militares em combate estão sujeitas a possuírem em suas fileiras, por mais que existam ótimos critérios de seleção, as chamadas “maçãs podres” e no caso da FEB não foi diferente. Mas percebemos, ao remeter-se a realidade enfrentada pelos soldados brasileiros em solo italiano, que a incidência de crimes de violência sexual no meio de nossa tropa pode ser considerada pequena.

Autor – Rostand Medeiros
Matéria - Tok de História.